Após 15 curtas no currículo, três das quais chegaram a marcar presença no Festival de Cannes, o realizador luso-suíço Basil da Cunha demonstra como o cinema português poderá evoluir na escassez de verbas e subsídios com a sua primeira longa: Até ver a Luz. Uma história de “misfits” noturnos em busca da redenção num bairro da Reboleira, na Amadora, onde o realizador reside, aprendendo assim a interpretar o seu redor e de uma forma algo enigmática e sempre subliminar, transcrevê-la para o grande ecrã.
Tendo em conta que não foi há muito tempo que O Bairro, produção nacional da autoria de Francisco de Moita-Flores, uma conversão de 20 episódios duma série televisiva para uma “recolagem” cinematográfica, estreou entre nós, Até Ver a Luz de Basil da Cunha separa-se a anos-luz da pseudonovela com tiques de mainstream americano e presenteia-nos um “aperitivo” daquilo que há muito os portugueses não se encontravam habituados nas suas produções audiovisuais: olhar realista à realidade dos mais marginalizados. O facto do realizador viver no local onde esta fita foi filmada e concebida, torna-o conhecedor da linguagem social destes “locais malditos de pura marginalização” que nas mãos de Basil da Cunha nos revela uma comunidade rica e viva subjugada à violência e em constante batalha por um “lugar ao sol” na aceitação social. Para além da credibilidade que o autor deposita na trama e nos seus personagens, é de louvar a linguagem cinematográfica que emane na sua narrativa e na transposição dos seus elementos.
Existe alguma influência de Akira Kurosawa na loucura das suas personagens e Jim Jarmusch no seu conceito marginal, na incursão de uma monstruosidade à lá Fellini e um espírito vanguardista não prejudicial ao realismo fílmico. Por outras palavras, há muito mais cinema neste Até Ver a Luz do que imaginamos, mais do que o simples exercício naturalista (e falado 80% em crioulo) o qual é realçado graças à preservação de tal factor por Basil da Cunha, existente no ambiente envolto como nos “não-atores”, simples moradores do bairro que dão um contributo importante para a longa-metragem. Ainda por mais e tendo em conta os planos de imagem fechada bem enquadradas e concretizados, o primeiro filme longo da sua carreira apenas demonstra o nato realizador que Basil da Cunha aparenta ser.



















