Se existe o cliché em apontar as secções paralelas do Festival de Cannes – a Quinzena dos Realizadores e a Semana da Crítica – como espaços para obras dramáticas de passo lento, contemplação, experimentalismo e intimismo, a verdade é que filmes como The Major e este On The Job demonstram como o cinema de regras, enredos e estilos mais comerciais tem espaço para mostrar as suas garras nestas secções, sem que para isso elas percam força ou objetivo.
On The Job, tal como o já citado The Major, é um thriller frenético em toda a sua extensão. Curiosamente, ambos os filmes parecem influenciar-se bastante no cinema de ação de Hong Kong e se cheguei a comparar o nervoso miudinho de Infernal Affairs ao thriller russo de Yuri Bykov, no caso deste filme de Erik Matti parece que estamos perante um filme da linhagem Johnnie To, até porque politica, crime, dramas pessoais e muitos tiros misturam-se nas doses certas, dando assim ao espectador uma experiência tensa e dramática, sem nunca ser descerebrada.
Baseando-se em factos verídicos – brilhantemente expostos nos créditos iniciais da obra – On The Job segue um esquema que liga a politica ao mundo do crime nas Filipinas, colocando detidos como assassinos contratados ao serviço de um general ambicioso. Na realidade, o grande vilão da obra quer eliminar alguns alvos que podem por em risco a sua ascensão politica. Assim, ele arranja uma forma de retirar presos da cadeia, fazer com estes executem os trabalhos, regressando depois à detenção com os álibis perfeitos (se estão detidos, como poderiam matar?).
Matti demonstra nas duas horas de filme que conhece bem as regras do cinema de ação e conduz a obra variando bem entre os momentos caóticos e alucinantes da execução dos golpes (assassinatos) e os momentos mais intimistas, em que os nossos assassinos contactam e interagem com familiares. O facto dos eventos ocorrerem nas Filipinas não retira força em termos internacionais. Aliás, tal como no cinema de Hong Kong ou no indonésio The Raid, algumas especificidades locais funcionam mais a favor do filme do que contra, pois acresce um tom exótico (longe do postal turístico), mas que nunca deixa de ser realista. Ainda assim, e apesar de algum enraizamento dos factos, existe uma universalidade na temática corrupção e ligação abusivas entre o crime e a política), o que facilita em grande a eventualidade de no futuro ser executado um remake.
Uma nota final para as boas presenças de Joel Torre e Gerald Anderson no elenco, que para além de se mostrarem convincentes nos papéis de detidos/assassinos, conseguem ainda transmitir ao espectador uma química entre eles que nos coloca na ambiguidade de podermos torcer por “maus da fita” (que na verdade também são). O trabalho de som e a direção artística são também de louvar nesta fita, em particular a cena inicial onde a mise-en-scene faz lembrar o melhor que o cinema de açção já nos ofereceu.
O Melhor: A tensão e toda a sequência inicial
O Pior: Alguns elementos ligados à vida dos detidos/assassinos, em particular da personagem interpretada por Gerald Anderson

Jorge Pereira

