«The Mill and The Cross» (O Moinho e a Cruz) por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)


Realização: Lech Majewski
Elenco: Rutger Hauer, Michael York, Charlotte Rampling.

As figuras da sociedade do Renascimento conforme o panorama criado por Brueghel, o Velho (1525-1569) no seu quadro “Procession to Calvary” (1564), ganham vida nesta reinterpretação de significados proposta pelo cineasta (e também pintor) polaco Lech Majewski. O quadro mostra a crucificação de Cristo, tema comum na época, mas já sob um prisma marcado pelas descobertas e transformações de um momento crucial na história da Europa.

Essencialmente, essas figuras e toda a pintura renascentista representam uma nova forma de olhar – e retratar – o mundo ao redor. Durante séculos a Europa foi dominada pela cultura oriunda dos mosteiros, que insistia em ser essa vida apenas uma passagem para outra, a do além – a que realmente contava. Por volta do século XV assiste-se no continente à ascensão imparável dos mercadores – mecenas de uma nova arte que descobria a beleza do dia-a-dia, alçava o homem a um lugar central na sua própria história (tirando o lugar de Deus) e, como no caso de Brueghel, descobria mesmo a revolta de fundo social.

De resto, o “procession to calvary” bem poderia o ser da igreja católica. É que, a par deste processo de laicização da sociedade, que minava uma mentalidade até então marcada pela mitologia cristã, outra “praga” disseminava-se como um rastilho de pólvora no continente – a Reforma Protestante. Entre outras “heresias”, Lutero e o seu cada vez maior número de seguidores afirmavam que a estrutura eclesiástica não era necessária para o exercício da religiosidade. As consequências de tal teoria para a gigantesca hierarquia romana eram óbvias e ninguém a defendeu tão tenazmente quanto os imperadores espanhóis – que na época ocupavam os Países-Baixos de Brueghel.

É esse o pano de fundo histórico do retrato de época que o filme reconstrói, com a sua narrativa essencialmente visual que mostra o quotidiano dos camponeses, a violência dos soldados, o espetáculo das execuções de hereges, as brincadeiras das crianças. São longos passeios em travellings por paisagens do mundo rural da Flandres, um trabalho de “animação” do quadro que passou por um oneroso e delicado trabalho de pós-produção.

Os três atores principais, em papéis pequenos, dão grande credibilidade a estes personagens – com destaque para Hauer que, em poucas aparições e ainda menos diálogos, confere ao pintor flamengo uma enorme dignidade.

Talvez o seu ponto mais fraco seja o de não estabelecer com suficiente clareza o vínculo entre a história e o momento presente – particularmente por se pôr em demasiada dependência do seu modelo. Essa deferência, ocorrida talvez em função do realizador ser também pintor, por vezes põe em risco a própria existência do filme enquanto uma obra de arte autónoma.

Certamente para poucos, esta obra aclamada em Sundance e que já percorreu mais de 50 festivais ao redor do mundo, tem recentemente encontrado o seu público, sintomaticamente, entre os frequentadores de museus – onde já se realizaram algumas bem-sucedidas sessões. No fundo, talvez seja onde o filme funciona melhor – já que é um magnífico panorama visual de arte e história, ilustrativo de um dos períodos mais belos e fascinantes da civilização ocidental.

O melhor: a originalidade da proposta e o seu resultado visual
O pior: a exagerada dependência do objeto no qual se inspira

 
 
 Roni Nunes

 

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