De Landscape in the Mist, de Theo Angelopoulos, a Central do Brasil, de Walter Salles, passando por Like Father, Like Son, de Hirokazu Kore-eda, a busca pelo pai biológico — ou a dúvida sobre o que faz realmente um pai — tem servido ao cinema para transformar a filiação numa viagem de busca de identidade e pertença.
É nesse território que City of Fathers (Město otců), drama checo de Zdeněk Tyc, apresentado nas Sessões Especiais de Karlovy Vary, em estreia mundial, se instala. No centro temos pai (Vladimír Javorský) e filho (Tomáš Vravník), ambos chamados Richard, que partilham um apartamento num bairro habitacional, embora quase nada mais os una. Se o pai, um antigo professor, ouve Dvořák ao jantar, fala constantemente de literatura e assiste a filmes clássicos na TV, o filho trintão prefere filmes de ação — Jean-Claude Van Damme é mencionado — e música que vai do punk ao metal. As suas figuras físicas são igualmente bastante distantes, o que leva Richard, o filho, a começar a sua investigação após a morte da mãe, que o abandonou há muitos anos e passou a viver agarrada ao álcool nas ruas onde mendigava.
Seguindo uma única pista, segundo a qual o seu pai biológico poderá ser um antigo membro de uma velha banda punk de Ostrava, Richard parte para a cidade, em jeito de road trip entre transportes públicos e andar a pé, encontrando cada um dos membros dessa banda underground que começara ainda nos tempos do comunismo. O que se segue é uma sequência de encontros bizarros, raiva acumulada e momentos inesperados de iluminação, estando ainda na equação o facto de este trintão ser um ex-alcoólico em recuperação e de a fragilidade da busca poder levar a uma nova recaída.
Realizador de filmes como Vojtěch, Called Orphan (1989), balada a preto e branco sobre um homem regressado da prisão que é incapaz de se reconciliar com qualquer ordem social, ou Razor Blades (1993), tragicomédia existencial atravessada pelo underground musical checo, Zdeněk Tyc tem já no seu passado muitos dos elementos que caracterizam este City of Fathers, uma reflexão bem-humorada sobre a paternidade enquanto enigma, mas acima de tudo sobre alguém que procura encontrar algum tipo de identificação com o estranho mundo que o rodeia.
Nesse sentido, Tomáš Vravník é uma força maior na criação da estranheza de alguém que parece fora do ambiente em que vive. Empregado fabril, mantém uma relação com uma mulher que trabalha na cantina do seu local de trabalho, mas parece incapaz de se agarrar a mais do que à procura do seu lugar no mundo, antes mesmo de perceber o seu papel nessa relação. Já Vladimír Javorský funciona como o polo oposto, um homem de regras estabelecidas que em tudo colide com o filho. No final, entre a comédia e o drama, City of Fathers sobressai como um filme nada ligeiro, mas transformado em algo aparentemente leve. Como uma música punk que esbarra numa sinfonia, ou como Ingmar Bergman a colidir com Lucio Fulci.

















