Mais ainda do que os exercícios extremos e hiperbólicos de gore que vemos espalhados no circuito de cinema de horror, Dom Dobry, um claro manifesto contra a violência doméstica, é um daqueles filmes em que a náusea é um estado permanente. Não seria de esperar outra coisa, vindo de quem vem, pois Wojciech Smarzowski frequentemente pega em supostos espaços de proteção — a aldeia (Wołyń), a família (The Wedding), a polícia (Traffic Department), a Igreja (Clergy), o Estado (The Dark House) — e mostra como todos eles podem tornar-se mecanismos onde a violência explode e o desalento é inevitável.
No caso de Dom Dobry, o espaço seguro falsificado é o lar, um lugar encerrado aos olhares alheios, onde a ameaça é permanente e íntima, sendo mais difícil denunciar e até provar qualquer infração. E desta vez não há o álcool de The Mighty Angel (2014) nem a corrupção institucionalizada de Clergy ou The Wedding, ainda que a figura da prevaricação volte a pesar sobre as autoridades, que vão fechando os olhos e cumprimentando normalmente o agressor.
O título do filme, que remete para um “bom lar”, está muito próximo da nossa impotência perante as supostas brincadeiras de Funny Games (1997). É nesse lugar “bom”, nesse espaço de conforto, que a vítima nunca encontra segurança e fica exposta a uma verdadeira sessão de tortura e manipulação.
Mantendo a sua forma de atacar sistemas de violência como um martelo pneumático, o cineasta polaco começa por nos apresentar a forma como um casal, que se conheceu online, começa a viver em comunhão. Das piadas iniciais às tórridas cenas sexuais, passando pela compreensão e pelo apoio perante problemas familiares, rapidamente vamos detetando pequenos sinais de chauvinismo, que vão crescendo até limites inimagináveis de violência e humilhação.
Antes de mais, há que compreender que a violência, em Smarzowski, raramente surge como acidente ou impulso isolado, mas como sistema. E esse sistema é um conjunto de rotinas com a sua própria linguagem e cúmplices, a que se juntam os silêncios apadrinhados pela santa Igreja e sociedade (“em briga de marido e mulher, não metas a colher“), criando zonas de verdadeira impunidade. Neste drama, vencedor do BellaTofifest, o sistema do cineasta deixa assim de ser social ou institucional para se concentrar num espaço doméstico, onde o agressor cria uma verdadeira máquina de controlo da narrativa.
Como vimos em vários exemplos do cinema contemporâneo, do mais recente O Homem Invisível (2020) a filmes como Custódia Partilhada (2017), o horror não está apenas nos atos de violência isolados, mas na forma como estes se repetem e, sobretudo, se normalizam. No processo, a vítima fica cada vez mais isolada, pois o mundo exterior continua como se nada estivesse a acontecer, levando-a mesmo duvidar de si e a questionar-se se não será ela a responsável por tudo.
Essa deterioração física e psicológica progressiva é mostrada em Dom Dobry através de um jogo estético que acompanha uma lógica de esmagamento. Recorrendo a vários formatos de imagem, da lógica da videocâmara/telemóvel à mais clássica de planos fixos, são os cortes rápidos da montagem que funcionam como uma espécie de espelho fragmentado da vítima perante os acontecimentos. Essa estética seca e agressiva, que não só recusa qualquer eufemismo à violência, mas leva-nos para dentro de uma câmara de tortura, transforma o “bom lar” num terreno de atrocidades, daquelas que vemos nos filmes de terror harcore.
Fiel a si mesmo, Smarzowski nunca põe o pé no travão e, transgressivamente, leva-nos para um sítio tão escuro e doloroso que é impossível ao espectador entrar no campo da alienação, ou de olhar para tudo isto como um filme-tema. Dom Dobry é sempre um choque brutal, viajando do paraíso ao inferno das relações de forma absolutamente esmagadora.



















