“Velho é quem perdeu a capacidade de se renovar.” A frase não é literal de um clássico, mas dialoga com uma ideia recorrente na obra do poeta português Miguel Torga (1907-1995), para quem a existência humana só encontra sentido enquanto permanece aberta à descoberta e ao espanto. Nos seus diários e poemas, o escritor fez da passagem do tempo um exercício de resistência à resignação. É justamente essa recusa em aceitar a velhice como sinónimo de fim que move Perto do Sol é Mais Claro, q nova longa-metragem de Regis Faria, protagonizada por seu pai, Reginaldo Faria. A interpretação dele é um achado… e contagia a plateia.

Mais do que um drama sobre o envelhecimento, o filme celebra a longevidade. Fá-lo sem recorrer ao sentimentalismo ou à idealização da terceira idade, construindo um retrato delicado de quem continua disposto a amar, criar e sonhar. O resultado lembra uma fusão entre Cocoon e Late Bloomers: do primeiro, preserva a crença de que a vida pode sempre renascer; do segundo, herda o olhar afetuoso sobre os afetos tardios. Mas, aqui, o fantástico não nasce de alienígenas nem de milagres. O único elemento extraordinário é a alegria de viver, esse joie de vivre que insiste em sobreviver às perdas.

Imortalizado no ecrã por Lucio Flávio, O Passageiro da Agonia (1977), Faria ilumina o cinema no papel de Rêgi, um engenheiro carioca de 85 anos que precisa de reaprender a viver depois da morte da esposa. O quotidiano inicialmente marcado pelo luto ganha novos contornos graças ao apoio dos filhos, ao projeto de escrever um livro e ao inesperado surgimento de um novo amor. Há uma camada autobiográfica que confere ainda mais autenticidade ao projeto. A realização e o argumento são assinados por Regis Faria, um dos filhos de Reginaldo, enquanto Marcelo Faria e Candé Faria, também filhos do ator, integram o elenco. Vannessa Gerbelli completa o núcleo principal, interpretando a atriz que desperta no protagonista a vontade de voltar a experimentar sentimentos que imaginava encerrados.

O percurso do filme em festivais reforça a sua boa receção. Perto do Sol é Mais Claro conquistou os prémios de Melhor Ator e Melhor Banda Sonora no Los Angeles Brazilian Film Festival e integra a mostra competitiva do Festival de Cinema Brasileiro de Paris. Responsável pela realização de Os Paqueras (1969), considerado um dos títulos inaugurais da pornochanchada, e titular de atuações marcantes, veja-se a primeira versão da telenovela Vale Tudo (1988), Reginaldo confirma que o seu carisma permanece intacto. A sua composição evita tanto o heroísmo quanto a autocomiseração, transformando Rêgi num homem comum que escolhe enfrentar a dor sem abdicar da curiosidade diante da vida.

Num momento em que o cinema costuma associar a velhice à doença ou ao encerramento de ciclos, Perto do Sol é Mais Claro prefere olhar para o tempo como possibilidade. É uma narrativa sobre perdas, certamente, mas sobretudo sobre permanências: do amor, da criação, da memória e da esperança. Um convite a perceber que, às vezes, perto do sol é mesmo mais fácil ver o futuro do que o passado.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
perto-do-sol-e-mais-claro-a-apoteose-de-um-grande-atorNum momento em que o cinema costuma associar a velhice à doença ou ao encerramento de ciclos, Perto do Sol é Mais Claro prefere olhar para o tempo como possibilidade.