Usado como chamariz para miúdos em Superman (2025), de James Gunn, a ponto de espantar a plateia mais antiga da longa-metragem responsável pela passagem de testemunho de Henry Cavill para David Corenswet, o cão Krypto não teve o mesmo destaque no argumento escrito por Ana Nogueira para Supergirl. A busca pelo seu bem-estar torna-se o motor da cruzada empreendida pela kryptoniana sem pais e sem lar — mas com um superprimo, o Homem de Aço — Kara Zor-El, numa superprodução estimada em 170 milhões de dólares. Mas isso não dá ao bicho a oportunidade de fazer as mesmas fofuras que fez na narrativa que tentou reinventar Kal-El e o seu alter ego, Clark Kent.

Havia ali uma premissa: o Super-Homem é o maior cosplayer da cultura pop, pois precisa de se fantasiar de humano fraco — Kent — para ser aceite numa Metrópolis que faz culto do seu salvador como se fosse um messias. Kara não teve o mesmo pavimento dramatúrgico nas BDs. Nem sequer tem uma identidade secreta a proteger. É apenas uma jovem enfadada à procura do seu lugar… no espaço, literalmente, a vaguear entre estrelas, em sofrimento pela destruição do seu planeta. Mesmo no filme, a limitada prestação de Milly Alcock não é capaz de traduzir o desterro que a alquebra. Quem nos aponta essa condição da personagem é David Krumholtz, de Lousy Carter (2023), impecável no papel de Zor-El, o pai de Kara. A sua interpretação é que vale o bilhete neste empreendimento caro do realizador Craig Gillespie, de Lars and the Real Girl (2007), em mais um esforço autoral para analisar as neuroses de figuras desterritorializadas, de pouca sorte.

Coerente com uma filmografia que atingiu o apogeu em I, Tonya (2017), Supergirl até é, mas não passa muito disso. Carece de alma, carece de carisma, carece da ambição épica que está na base do cinema de vigilantes derivados de bandas desenhadas. A bem-vinda discussão do sexismo, numa mirada crítica para o erradicar, está presente no argumento. Porém, mesmo esse debate dá-se nas franjas de uma intriga de predestinação das mais corriqueiras. O mote é o mesmo do primeiro John Wick (2014) — a agressão a um cão abre precedentes para um conflito feroz —, mas Gillespie nem sequer arranha a grandiosidade da saga com Keanu Reeves. Filma as lutas de forma burocrática, sem explorar os dons da sua dupla de montadores, Fred Raskin e Tatiana S. Riegel, para montagens viscerais.

Repaginada nas artes gráficas e no mercado editorial há já cinco anos, graças ao trabalho de verve feminista da desenhadora paulista Bilquis Evely na minissérie A Mulher do Amanhã (2021), lançada em múltiplos territórios pela Panini, a Supergirl sempre fez diferença nos arcos dramáticos da ficção DCnauta pelo seu poder colossal. É signo do empoderamento desde que foi criada pelo argumentista Otto Binder (1911-1974) e pelo ilustrador Al Plastino (1921-2013), em maio de 1959, na revista Action Comics n.º 252. É um desperdício Gillespie não ter usado esse material. Há, no máximo, uma referência ao nome de Bilquis.

A impressão é a de que um gerente de banco ou um funcionário de repartição pública — tipo a Preguiça de Zootopia (2016) — filmou a peleja de Kara para salvar Krypto de um envenenamento provocado por um bando de saqueadores estelares liderado por Krem, interpretado pelo belga Mathias Schoenaerts, distante da exuberância que esbanjava em De Rouille et d’Os (2012). O vilão tornou órfã uma jovem, Ruthye, vivida por Eve Ridley, que recorre ao apoio de Kara para se vingar.

Entre as duas e o criminoso galáctico aparece Lobo, um valentão que a DC Comics encara como se fosse a sua resposta ao Wolverine da Marvel. Responsável pela extinção da sua espécie, os czarnianos, o grandalhão, definido como um caçador de recompensas armado com um gancho, torna-se uma vã imitação pobre de Deadpool na composição sem fulgor de Jason Momoa. O seu êxito como Aquaman levou à sua escolha para outra personagem no mesmo universo onde viveu o Rei dos Mares. Só o que ele faz é repetir os tiques do Senhor das Águas. Só não fala com peixes, embora Lobo crie cetáceos nos comics.

Gillespie limitou-se a cumprir algoritmos num filme que poderia ser estratégico para fabricar um novo veio mitológico em torno de Krypton e das suas figuras remanescentes. Numa fase de agonia comercial para um filão outrora infalível, a sua apatia criativa só alarga o precipício para onde caminham as longas derivadas da DC e da Marvel. Parece que a kryptonita fez efeito… e dos mais danosos.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
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