Com mais de 100 créditos entre cinema e televisão, onde se incluem as séries “Numb3rs” e “The Deuce”, além de filmes como “A Balada de Buster Scruggs” e “Oppenheimer”, David Krumholtz tornou-se num daqueles rostos facilmente reconhecidos no cinema e televisão de Hollywood.
Raramente visto como protagonista, o ator norte-americano tem em “Lousy Carter”, cuja estreia acaba de ocorrer em Locarno, um papel que encaixa em si na perfeição, ao ponto de não imaginarmos um outro ator como um professor deprimido. Visto como um fracasso pela mãe, cheio de dívidas e sem a paixão dos alunos pelas disciplinas que leciona, Carter recebe uma notícia ainda pior: tem uma doença terminal. A sua relação com todos, incluindo alunos, colegas e amigos, começa progressivamente a mudar, mas estará ele disposto a se aventurar uma última vez antes de partir?
Escrito e realizado pelo cineasta indie Bob Byington, “Lousy Carter” tem um forte componente biográfica e ganhou uma toada ainda mais negra do que seria de esperar pelo momento em que foi escrito. “Foi escrito durante a pandemia e ela mudou tudo”, explicou-nos o cineasta, que desde que terminou o guião começou a falar com com David sobre a personagem. “Lembro-me de termos particularmente discutido o fim do filme”, disse-nos David Krumholtz, acentuando o humor seco do filme e a forma como a sua personagem vai assistindo ao descalabro final da sua vida.

Atualmente ativo na greve dos atores, David teve autorização da guilda norte-americana para se deslocar à Suíça para pronover o filme. Claro que o pôde fazer com alguns senões, como não falar de “Oppenheimer” ou sobre o seu futuro em termos de papéis. Apoiante da greve, pois afinal das contas “não podes operar um negócio multimilionário sob as costas de alguém e não esperar que elas queiram um maior pedaço disso”, David explicou que a ligação ao cineasta, com quem já colaborou no passado, foi determinante para aceitar participar, mas admite que a maioria das vezes, não é ele que escolhe os papéis, mas é escolhido: “Claro que há coisas para as quais não quero fazer audições, sempre tendo em conta a qualidade ou falta dela, ou repetição de papéis que já fiz anteriormente. Essencialmente os papéis chegam a mim depois das audições. Sou uma pessoa trabalhadora e se me derem algum papel que não acredite no projeto, se pagarem bem aceito.Tenho dois filhos e a vida é difícil, Eles saem caros. Muitas vezes perguntam-me como escolho os papéis, mas a verdade é que o meu verdadeiro poder está em não fazer alguns filmes e séries“.
Numa era em que muitos papéis são oferecidos a pessoas pela quantidade de seguidores nas redes sociais, ou que através de IA podemos repescar atores mortos e manipular os vivos nas telas, David diz que a linha ética sobre as questões tecnológicas já foi ultrapassada há mais de uma década, mas mostra-se seguro com o futuro: “Estamos num recreio a jogar e existem imensos jogadores. Todos são bem vindos a jogar. Eu tenho sorte porque o meu talento falou por mim e, como resultado disso, tenho tido grandes oportunidades, mas o medo disso não acontecer ou desaparecer comanda a minha vida e traz-me um grande nível de paranoia e rancor. Catastrofizo muito isso, mas não temo o futuro e aguardo por ele. A IA pode trazer no futuro benefícios e influenciar o atuar. Ainda não vejo isso, mas espero que a essência humana prevaleça em relação à tecnologia.”
Famoso por “Numb3rs”, David sentiu durante vários anos a pressão do sucesso da série, especialmente junto de “jovens nerds cientistas”, que muitas vezes o abordavam sobre a série. Porém, muita coisa mudou nos últimos anos e nem tudo foi bom, como nos esclarece: “Hollywood é obcecada pela diversidade, para o melhor e para o pior. Há muitos pontos dessa obsessão que valem a pena, mas, como consequência, não sou muitas vezes considerado suficientemente branco. Sou principalmente visto como judeu, embora não seja praticante de todo, nem me identifique com qualquer catalogação feita a mim. Por isso, tento evitar esses arquétipos”.
Já Bob considera que David tem “uma carreira real”, ao contrário dele, que faz filmes demasiado pequenos a partir do investimento de amigos. Para ele, o mundo da IA, onde programas testam guiões para ver a rentabilidade dos filmes, não é o seu, embora reconheça transformações, em particular na última década em relação ao que se pode ou não escrever: “Depois de tudo o que aconteceu nos últimos anos, o #me too, a cultura do cancelamento, a diversidade, etc, tenho de ter muito mais cuidado naquilo que escrevo. Tentamos nos afastar disso, mas é impossível. Em termos de financiamento, posso dizer que os produtores nunca me pressionam muito quanto aos conteúdos. Mas sei que existe essa pressão”.
O Festival de Locarno termina a 12 de agosto.

