Na semana em que o Festival de Annecy, criado há 66 anos, mas realizado com hiatos bienais durante quase três décadas, celebra a sua 50.ª edição, consolidando-se uma vez mais como a Meca da animação mundial, a Pixar, em sinergia com a Disney, decide pôr em jogo aquilo que pode ser o grande sucesso das suas fornalhas industriais em 2026: Toy Story 5. É um filme de vertigem dramatúrgica: corre-se de um lado para o outro, como o cavalo de pano faz, numa dinâmica de quiproquós, com mais espaço para angústias existenciais, mas também para o riso, do que nos quatro capítulos anteriores. Nota-se menos a necessidade de o estúdio funcionar como um divã de analista e propor sessões de psicanálise animada, como sucedia nos sobrestimados Inside Out (2015/2024) ou Coco (2017). O sentido de aventura prevalece aqui… finalmente.
A existência de Toy Story 5 não pode, porém, ser dissociada da própria história da Pixar, um dos mais extraordinários fenómenos industriais e criativos da história do cinema contemporâneo. Nascida em 1986 a partir do Graphics Group da Lucasfilm, a empresa foi adquirida e financiada por Steve Jobs, que apostou milhões de dólares num projeto que parecia condenado a viver apenas nos laboratórios da computação gráfica. Antes de revolucionar Hollywood, a Pixar sobreviveu a sucessivos fracassos comerciais na área do hardware e a anos de incerteza financeira. Foi apenas com a chegada de John Lasseter e com a criação de curtas como Luxo Jr. (1986) que o estúdio começou a provar que a tecnologia podia servir emoções.
O verdadeiro terramoto ocorreu em 1995, quando Toy Story (1995) chegou aos cinemas e se tornou a primeira longa-metragem integralmente produzida por computador. O filme arrecadou mais de 400 milhões de dólares em todo o mundo e transformou a Pixar numa potência. Vieram depois títulos como Monsters, Inc. (2001), Finding Nemo (2003), The Incredibles (2004), Ratatouille (2007), a obra-prima WALL-E (2008), Up (2009), Inside Out (2015) e Soul (2020), obras que ajudaram a redefinir os parâmetros da animação comercial. Em 2006, a Disney comprou a empresa por cerca de 7,4 mil milhões de dólares, integrando-a definitivamente no seu império audiovisual.
Ao longo desse percurso, a Pixar construiu uma reputação assente numa combinação rara de inovação tecnológica e sofisticação narrativa. Mas também consolidou uma tendência, já supracitada, para transformar os seus argumentos em mecanismos de terapia emocional coletiva. O luto, a perda, o crescimento, a despedida e a aceitação tornaram-se temas recorrentes. Em certos momentos, o estúdio parecia menos interessado na aventura do que na elaboração psicológica dos traumas.
É precisamente aí que Toy Story 5 surge como uma espécie de correção de rota. A inveja sempre foi a palavra que sedimentou as dramaturgias, nem sempre agradáveis, da saga iniciada em 1995. Woody odiou Buzz Lightyear à primeira vista porque este lhe roubou o lugar privilegiado junto de Andy. Mais tarde surgiram outras figuras movidas pela rejeição e pelo ressentimento, culminando em Lotso, o urso púrpura de Toy Story 3 (2010), talvez a mais cruel personagem antagonista criada pelo estúdio. Através dela, a série cristalizou uma ideia que percorre toda a franquia: crescer implica perder, aceitar substituições e compreender que quase tudo é transitório.
Essa lógica alimentou o sucesso da Pixar durante décadas. Contudo, desta vez, Andrew Stanton, realizador de Finding Nemo e WALL-E, e McKenna Harris propõem uma reflexão diferente. O conflito já não nasce apenas da substituição entre brinquedos. O adversário agora é a tecnologia.
A pequena Bonnie desenvolve uma relação obsessiva com Lilypad, um tablet inteligente que monopoliza a sua atenção e ameaça relegar para a irrelevância os brinquedos físicos que a acompanharam desde a infância. O slogan promocional do filme, “Toy Meets Tech”, resume com clareza o eixo dramático da narrativa. Não se trata apenas de uma disputa entre objetos. É uma batalha simbólica entre imaginação tátil e dependência digital.
Neste novo contexto, Jessie, interpretada por Joan Cusack, num desempenho inspirado, assume uma posição central. Desde a partida de Woody, tornou-se a principal figura de liderança no quarto de Bonnie e é ela quem sente primeiro o impacto da substituição. A personagem converte-se no coração emocional da narrativa, enfrentando a sensação de obsolescência perante um dispositivo eletrónico concebido para responder a todos os desejos da sua dona.
A partir daí, Stanton desenvolve uma aventura surpreendentemente dinâmica, onde os temas da rejeição e da reinvenção convivem com sequências de ação de grande energia visual. A Pixar demonstra uma vitalidade gráfica renovada, apostando numa paleta cromática exuberante e numa direção artística que, em vários momentos, afasta deliberadamente a imagem do hiper-realismo tecnológico que caracterizou parte da produção recente do estúdio.
Mais interessante ainda é a forma como o filme introduz uma ideia praticamente inédita na série: a permanência. Durante décadas, Toy Story ensinou que tudo passa, tudo muda e tudo acaba. Aqui, pela primeira vez, surge a hipótese de que certos afetos sobrevivam ao tempo, às transformações e às inevitáveis despedidas. É uma mudança subtil, mas significativa, numa saga construída precisamente sobre a inevitabilidade da perda.
Também por isso, Toy Story 5 consegue recuperar algo que parecia perdido na trajetória recente da Pixar: o prazer puro da aventura. Sem abandonar a dimensão emocional que sempre distinguiu o estúdio, o filme devolve protagonismo ao movimento, ao humor e à fantasia. Não abdica da reflexão, mas recusa transformar cada cena numa sessão de terapia.
Ao fim de quase quatro décadas de existência, a Pixar continua a procurar novas formas de dialogar com o seu público. E se este quinto capítulo não atinge a revolução estética do primeiro filme nem a perfeição emocional de WALL-E, confirma que a casa fundada por Catmull, Smith, Lasseter e financiada por Jobs ainda possui reservas criativas suficientes para desafiar a estagnação. Em tempos dominados por algoritmos, inteligência artificial e ecrãs omnipresentes, talvez não seja por acaso que os brinquedos voltem a exigir o direito de existir.




















