Apesar de Caveat ter sido um curioso cartão de apresentação ao mundo do terror por parte de Damian Mc Carthy, ele só encontrou o primeiro vislumbre de real sucesso com Oddity, um filme estranhíssimo, tal como o primeiro, convenha-se, onde acompanhamos uma médium cega que gere uma loja de curiosidades e que encontra num golem de madeira que se torna crucial para encontrar a verdade sobre o assassinato da irmã gémea.
Vencedor do prémio de melhor longa-metragem europeia no Motelx, além do Prémio do Público na secção Midnighter do SXSW 2024, onde estreou, o filme serviu de rampa de legitimação para o levar até Hokum – A Maldição Oculta, onde o cineasta se confirma como um artesão do jump scare, além de saber trabalhar bem em espaços fechados e assombrados.
Agora numa produção de maior escala e com Adam Scott no centro, o filme até pega num velho conceito inscrito nos códigos do terror gótico: o do escritor em crise que se refugia num pequeno hotel num lugar isolado, algures na Irlanda, com o intuito de enfrentar os seus fantasmas pessoais. Porém, nesse trajeto, esse mesmo homem acaba por encontrar fantasmas concretos num espaço carregado de memórias do passado e de tensões mal resolvidas do presente.
Adam Scott é Ohm, um escritor que desde o primeiro momento mostra uma enorme arrogância perante o conjunto de empregados do hotel que o recebe. O intuito da visita desta figura desagradável é depositar as cinzas dos pais: a mãe morreu há muitos anos, assassinada; o pai, que “se transformou num monstro” após a morte da esposa, faleceu recentemente. Para chegar ao sítio exato, ele socorre-se de uma foto antiga da mãe, junto a uma árvore, como se a imagem servisse de pista para uma qualquer redenção.
Damian Mc Carthy vai colocando figuras ambíguas ao longo do caminho de Ohm, seja um empregado do hotel que representa de alguma forma a força bruta do território, ou outro com uma veia literária, e ainda outro que vagueia pela floresta numa representação do lado mais misterioso e selvagem. É, porém, em Fiona (Florence Ordesh) que o escritor encontra algum tipo de conexão, sobretudo após um momento em que esta o salva de uma situação de risco.
Quando Fiona desaparece sem deixar rasto, algo desperta no escritor que o empurra a investigar, levando-o a mergulhar no folclore local e num quarto do hotel encerrado há anos por alegadamente abrigar uma bruxa. Ao transformar este hotel, inicialmente apenas funcional como lugar de passagem, num território carregado de confrontos entre memórias e superstições, o cineasta usa a arrogância de Ohm como motor para a sua desconstrução.
A verdade é que este homem chega à Irlanda convencido de que consegue reduzir o folclore local a um exercício de exotismo turístico e usar o seu luto como ritual privado. Por isso mesmo, a escolha para o título de Hokum, que na gíria dos EUA implica conversa fiada ou baboseira, revela um confronto. De um lado temos a razão urbana e autocentrada do norte-americano; do outro uma comunidade ainda agarrada à oralidade e território. Neste último, as histórias que se contam não pertencem apenas ao passado, mas servem para preservar diversos ressentimentos até ao presente. É nessa dinâmica que Mc Carthy parte para o desmontar das certezas, transformando o que parecia ser uma tentativa de encerrar um capítulo familiar numa descida vertiginosa a um lugar onde o místico e o real andam de mão dada.
Na estética e na sua evocação gótica, McCarthy revela um grande sentido de ritmo na progressão do horror, sabendo implantá-lo para além do truque dos jumpscares, que existem e até são particularmente eficazes. Mas a sua maior arte reside mesmo em carregar cada corredor, quarto e objeto com o peso da história, encontrando nisso um paralelo com o protagonista, também ele moldado sob o peso da tragédia.
Ainda que nunca atinja a estranheza hipnótica de Oddity, Hokum é bastante eficaz e confirma McCarthy como alguém com boas capacidades para transformar espaços encerrados em câmaras de eco para traumas antigos. E, por isso mesmo, merece um olhar atento.




















