Ao ser premiado no Festival de Locarno, em 2022, com o Leopardo de Honra, pelo conjunto da sua obra, o produtor Jason Blum afirmou que o teto médio de investimento nos seus filmes ronda os 25 milhões de dólares. Poderia chegar a dobrar esse valor caso se tratasse de um projeto muito especial (como a adaptação da BD Spawn, ainda em desenvolvimento), mas, regra geral, trabalha com orçamentos reduzidos para filmar (e lucrar) sempre mais. Estima-se que a sua arrecadação, da década de 1990 até hoje, ultrapasse os 10 mil milhões de dólares. No seu projeto mais recente, Obsessão (Obsession), a sua empresa, a Blumhouse, voltou a superar-se na contenção orçamental, com um custo estimado de apenas 750 mil dólares. A realização, repleta de destreza, é de Curry Barker, prolífico argumentista e ator vindo do circuito digital, que aqui transforma frustração romântica em matéria de terror físico e psicológico. A dinâmica da sua ligação ao sobrenatural materializa o medo e devolve-o em espasmos em cadeia. A plateia reage, sequência após sequência.
O filme acompanha Bear, interpretado por Michael Johnston, um jovem emocionalmente dependente da amiga Nikki (Inde Navarrette), incapaz de verbalizar a paixão que sente desde a adolescência. A descoberta, numa loja de produtos esotéricos, de um artefacto sobrenatural conhecido como “One Wish Willow”, capaz de concretizar desejos, desencadeia a espiral narrativa: ao pedir o amor incondicional da jovem, Bear obtém exatamente o que deseja, mas o preço transforma-se rapidamente num mecanismo de degradação emocional e violência crescente. A relação afetiva converte-se numa prisão paranoica onde desejo, posse e identidade começam a dissolver-se.
Curry Barker desenvolveu a longa-metragem a partir do seu sucesso underground na internet, em particular com a curta Milk & Serial, que chamou a atenção pelo uso criativo do suspense psicológico em ambientes quotidianos. Obsessão investe com eficácia em jump scares tradicionais (sustos físicos, quase viscerais), ao mesmo tempo que explora a deterioração emocional das personagens, criando uma atmosfera desconfortável que cresce progressivamente. Exibido no Festival de Toronto de 2025, o filme passou também pelo Fantastic Fest e venceu o Grande Prémio do Público em Sitges, principal montra mundial do cinema fantástico. O desempenho do casal central é particularmente sólido.
Ao ler o argumento, a Blumhouse decidiu preservar a escala reduzida e a liberdade formal do cineasta, permitindo que Obsessão mantivesse uma identidade mais próxima do cinema de autor do que do horror industrial clássico. Essa lógica encaixa-se diretamente na transformação que o cinema de terror sofreu na última década, sobretudo após a ascensão da produtora de Blum como uma espécie de laboratório de novos autores. A partir da franquia Atividade Paranormal (2007–2021), Blum tornou-se uma figura central no setor.
Entre produções de baixo orçamento e elevada rentabilidade, Blum consolidou um modelo que redefiniu o género contemporâneo, permitindo que realizadores como Jordan Peele, Leigh Whannell, Sophia Takal, David Robert Mitchell, Tate Taylor e M. Night Shyamalan explorassem o terror como sintoma social, político e psicológico. O género deixou de depender exclusivamente do susto para investir em temas como trauma, ansiedade coletiva, colapso afetivo e paranoia contemporânea.
Blum defende que o horror moderno funciona como um espelho imediato das inquietações sociais do presente, reagindo mais rapidamente ao medo coletivo do que qualquer outro género cinematográfico. A consagração crítica de obras como Get Out (2017) e The Black Phone (2022) ajudou a cristalizar um novo cânone, onde o terror se aproxima da alegoria política, da autoficção traumática e até do melodrama existencial. É precisamente nesse território híbrido que Obsessão se inscreve. Barker filma a dependência amorosa como um vírus emocional capaz de deformar corpos, espaços e comportamentos. O sobrenatural surge menos como elemento fantástico clássico e mais como prolongamento físico de pulsões reprimidas. A sequência de uma “demonstração de ciúmes” de Nikki é particularmente perturbadora.























