Dando uma nova vida a uma curta-metragem de 25 minutos que lançou em 2023 e com a qual conquistou o César, a francesa Amélie Bonnin “aterrou” na sessão de abertura oficial do Festival de Cannes com um novo (mas pouco refrescante) “Partir un Jour”, um daqueles “anzóis” Kitsch para a crítica (especialmente gaulesa) se derreter de elogios, mas que é bastante piroso/brega e cliché no seu tortuoso caminho para apresentar a enésima história de alguém que partiu de uma pequena localidade para a grande cidade e deixou o seu grande amor para trás.

O cinema, seja francês ou norte-americano, tem frequentemente visitado este terreno, mas partindo de uma ideia concreta onde música é diálogo e vários temas musicais (dos 2Be3 [que dá título ao filme], Stromae, Nougaro, etc) são reinterpretados em jeito Karaoke (os créditos iniciais e finais do filme fazem ligação a esse sistema) perante situações quotidianas, os resultados, além de uma nostalgia retro mundana, que se quer vender como rapsódia musical e cinematográfica hipster, são escassos, seja no desenvolvimento das rotinas e rituais das relações familiares e amicais, seja nos amores e desamores da nossa protagonista, Cécile, uma Chef de cozinha célebre pela participação num programa de TV, e que está prestes a abrir um restaurante com o parceiro.

Bastien Bouillon e Juliette Armanet interpretaram os dois papéis principais na curta-metragem original, mas desta vez invertem os seus “postos”, deixando o espectador de seguir um homem que retorna à sua cidade natal e reencontra sua namorada de infância, mas o contrário. Com isso, muda-se o foco do filme, de um ponto de vista masculino, para o feminino, sem qualquer resultado digno de nota além da do truque de género para vender uma refeição processada, mas que se apresenta como “natural” e gourmet.

As cenas de canto, gravadas ao vivo nos sets, sem recorrer a estúdio para gravações, trazem ao espectador o que podemos chamar de “autenticidade construída”, em especial aquelas em que se recorre a uma coreografia de gestos, muitas vezes banais, como o cozinhar (ou descascar batatas). Porém, isso apenas aligeira o enfado que “Partir un Jour” é, mesmo  que tente puxar até si o espírito de “Os Chapéus de Chuva de Cherburgo” ou “On connaît la chanson, isto em tempos de sucesso de “The Bear”.

Num Festival de Cannes que convocou “Um Homem e uma Mulher” (1966) para o seu poster e espírito, “Partir un Jour” vive de uma gímnica, de um truque só e falha em toda a sua linha.

Texto originalmente escrito a 14 de maio de 2025

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Jorge Pereira
Rodrigo Fonseca
partir-un-jour-filme-karaoke-de-autenticidade-construidaUm daqueles “anzóis” Kitsch para a crítica (especialmente gaulesa) se derreter de elogios, mas que é bastante piroso/brega e cliché no seu tortuoso caminho para apresentar a enésima história de alguém que partiu de uma pequena localidade para a grande cidade e deixou o seu grande amor para trás.