Quando se começa a desenhar a conversa em torno do novo filme de Maïwenn, “Jeanne du Barry”, o que salta mais à vista não são propriamente as qualidades artísticas da obra, mas essencialmente todos os elementos periféricos à produção que trouxeram para o filme o selo de “escândalo”. É que além do interminável caso Johnny Depp Vs Amber Heard, pois este é o primeiro filme do ator depois da decisão do tribunal a seu favor, a própria realizadora, já com fama de “enfant terrible” em terras gaulesas, viu-se envolvida em cenas de pugilato, com cuspidelas pelo meio, com um jornalista do Mediapart.
No meio de todo este imbróglio, perfeito para a imprensa cor de rosa, à falta de chama, fúria, ganas e até uma estranha ausência de carnalidade, acrescem as habituais artimanhas estéticas e técnicas dos filmes de “época”, com o brilho a surgir apenas da direção de fotografia, do guarda-roupa e do design de produção. A montagem, inerte e sem qualquer rasgo que abalroe um guião demasiado certinho para um espírito livre como Maïwenn, faz descambar tudo o resto, levando a um desinteresse imediato ainda nos primeiros trinta minutos. Mas o mais estranho de tudo isto é que a cineasta – que, pela primeira vez assina um filme onde é a protagonista – parece nunca agarrar, nem dar charme e carisma à sua Jeanne du Barry, construída em articulação com “Madame Du Barry“, de Jeanine Huas, e o apoio de um historiador do século XVIII da Sorbonne.
Habituada a lidar com grandes histórias de amor (e mesmo obsessão), como se viu no subvalorizado “Mon Roi”, a realizadora – que começou a interessar-se por Jeanne du Barry depois de ver o filme de Sofia Coppola em 2006, “Marie Antoinette”- nunca nos convence na pele desta plebeia, filha de um monge e de uma cozinheira, que se tornou a favorita do rei Luís XV, até cair em desgraça nos anos seguintes após a morte do monarca. Para piorar, a franco-argelina nem consegue criar uma química particular com Johnny Depp, o qual regressa às grandes produções com um competente papel, enfiado num filme demasiado convencional.
Será efetivamente uma bizarra e surpreendente veia humorística que vai sobressair no final disto tudo, onde até diversas personagens parecem saídas de outros contos, como da Cinderela, não fossem as filhas de Luís XV uma pestes sempre a tentar colocar veneno nas relações sociais de Jeanne du Barry.
Filmado em filme 35mm, principalmente no Palácio de Versailles, quando este estava fechado ao público às segundas-feiras, “Jeanne du Barry” apresenta-se assim como uma história ficcional repleta de liberdades, mas que se mantém sempre inanimado, sem uma verdadeira explosão ou pura audácia. É que, afinal, estamos a falar de uma cortesã que se tornou condessa e que se tornou a amante favorita e o grande amor do rei Luís XV, gerando um enorme escândalo na corte francesa do século XVIII. Não havia espaço para algo mais arriscado e contundente? Claro que sim, mas Maïwenn cedeu desapaixonadamente ao facilitismo e superficialidade.



















