Remake do filme japonês “One Cut of the Dead“, “Coupez!” (Corta!) representa um novo desafio para um cineasta que é mais conhecido por explorar o cinema nos seus mais variados géneros.
Vencedor do Oscar por “O Artista“, o responsável pelo início da franquia ”Agente 117”, uma paródia francesa a James Bond, e de dramas como “The Search” e “Godard, O Temível”, Michel Hazanavicius surpreendeu quando embarcou em 2019 num filme para crianças, “Um Príncipe em Apuros”, com Omar Sy na liderança.
E enquanto preparava o seu novo drama, um filme de animação cuja ação se desenrola durante o Holocausto, o realizador voltou a surpreender o público com uma comédia de horror passada nos bastidores da produção de um filme. Em “Corta!” estamos numa fábrica abandonada, local para as filmagens de um filme de terror de nível Z. Os técnicos estão cansados, os atores não estão envolvidos e só o realizador parece ter a energia necessária para dar vida a este enésimo filme de zombies de baixo orçamento. Porém, durante a preparação de uma cena particularmente difícil, as filmagens são interrompidas por uma erupção de mortos-vivos. Ou pelo menos tal parece.
Foi em Cannes que nos encontrámos com Michel Hazanavicius para falar sobre este projeto atípico no cinema francês.
Qual é a sua primeira memória de assistir um filme de horror?
O primeiro filme de horror que vi e assustei-me muito foi o “Holocausto Canibal“. Era um miúdo, na casa dos 12 anos. Não tinha vídeo, mas um amigo meu, cujos pais eram ricos, tinha. Assisti ao filme na casa dele e fiquei muito, mas muito assustado. Creio que esta é a minha memória mais antiga de ver um filme de horror.
E segue o género?
Não sigo muito e, para ser sincero, o meu filme não tem tanto assim a ver com o horror. Tudo se passa num set de filmagens e podias dizer que é uma comédia de bastidores. Além disso, os meus zombies são para bebés (risos), não são assustadores. Na verdade, não há zombies, mas sim atores com más interpretações.
Vivemos numa sociedade de entretenimento em que os zombies ganham cada vez mais espaço. Que significado têm os zombies para si?
Os zombies acima de tudo são um estereótipo, especialmente no cinema. O que posso dizer sobre o meu filme é que nele não existe nenhuma mensagem especial, nenhum subtexto, nada. Não são zombies o que vemos em cena, mas atores nas filmagens a tentarem ser zombies. As coisas não correm bem, quando vais estudar o que são zombies na Wikipedia.

Já conta com vários filmes no currículo, todos eles bastante diferenciados. O que o move no cinema?
Creio que estou mais interessado na forma de dizer as coisas, do que nas coisas em si. Se pensarmos numa história de amor, não existe nada de realmente novo no facto de alguém se apaixonar por outro. Nem que seja um homem a apaixonar-se por um homem ou uma mulher por uma mulher. Não existe nada de novo para dizer. Já a forma de contar essa história, sim, faz toda a diferença. O cinema é isso, interessa a forma como contar uma história. Esse é o meu foco.
E o absurdo das filmagens que vemos em cena. Tem alguma memória de filmagens assim loucas ou situações difíceis de ultrapassar nos sets?
Bem, muitas. Uma vez tinha um jovem ator que só tinha uma fala. A sua pronúncia dificultava o dizer bem uma palavra de duas sílabas. Foi muito complexo resolver a situação(risos). Ao quarto take peguei no meu engenheiro de som e nele e tentei resolver, mas parecia impossível. Sabes, quando és realizador tens de passar por muitas situações simples, mas alucinantes. Às vezes tens o céu mais limpo do mundo e tudo está preparado para o filmar, mas chega uma nuvem, do meio do nada, e instala-se ali. Ficamos todos a olhar para a nuvem feitos parvos a ver se ela desaparece.
O realizador que vemos em cena é bastante louco. Há algo de si nele?
Poucas coisas, mas há algo que reconheço: o facto dele estar sempre a correr. E quando falo em correr é contra o tempo, não em termos de espaço. Tenho em mim esse sentimento de emergência.
Creio que o realizador que vemos no filme esqueceu um pouco as suas ambições, mas é relembrado que pode chegar um pouco mais longe, ser mais íntegro e ambicioso. Mesmo sendo um filme mau de zombies, um filme série Z, ainda podes lutar por fazer as coisas da melhor maneira possível. Creio que todos nós ocasionalmente somos confrontados com este conflito de aceitar as coisas como elas são ou lutar um pouco e ir mais longe.
A escolha dos planos sequência num filme é sempre arriscada, mas é a opção de grandes realizadores. Há algum cineasta que o inspire nesse aspeto?
Sim, sem dúvida. O Alfonso Cuarón. No “Filhos do Homem” há pelo menos três dessas sequências que são abismais e muito bem feitas. No “Birdman” igualmente. Mas, sendo sincero, não sou como alguns realizadores que são obcecados por esses planos e os consideram o topo dos topo da linguagem de cinema. Não sou obcecado por eles. Aqui trabalhei nisso a partir de storyboards que construímos, coreografando tudo com a grande noção de tempo e espaço. Mas essa não foi certamente a minha maior dificuldade. O pior foi o ter de fazer um filme mau dentro dentro dessas cenas. Preencher aquela sensação de vazio. Coreografar isso, esse vazio total, foi o mais complicado.
O seu próximo filme, que será uma animação, aborda o Holocausto, que é um tema de grande potencial dramático. Era importante para si, enquanto finaliza esse projeto, fazer pelo meio um filme para crianças (O Príncipe) e uma comédia de horror mais ligeira como esta? Há em si o gosto de explorar géneros cinematográficos diferentes…
Acima de tudo, estas escolhas são uma forma de explorar o cinema. Não calculo as coisas ao nível de: “agora vou fazer um filme para miúdos e outro para graúdos“. Surgiu a oportunidade de fazer “Um Príncipe em Apuros”, algo com um grande orçamento e o Omar Sy. Tentei fazer um tipo de filme que não estamos habituados a fazer em França.
Na verdade, gosto de fazer coisas diferentes. Não quero fazer sempre o mesmo filme. Depois desse filme comecei a trabalhar na animação, que é uma história muito bonita, cuja ação se desenrola durante o Shoah. É muito bonito, mas também muito pesado. Por causa da pandemia tivemos de parar os trabalhos. Faltava ainda algum dinheiro para o terminar, por isso decidi embarcar nesta comédia. Fiquei mesmo muito feliz com essa decisão. Parecíamos todos uns miúdos, no final do ano letivo. Filmar este “Corta!” foi como a chegada das férias. Sentia-me livre (risos).
Sente-se um cineasta livre?
Sim, totalmente. Nunca ninguém me pressionou para fazer um filme. Gosto de experimentar coisas novas e tenho liberdade para isso.
E o que tem a dizer sobre a polémica em torno do “Z”, que era o título original do filme em francês, mas que foi mudado por causa da guerra na Ucrânia?
Fizemos este filme há um ano e não havia qualquer tipo de questão em relação ao “Z”, que era representativo de ser um filme série Z. Claro que mudámos o título, mesmo que no filme ele se mantenha. Sabe, fiz um filme sobre os russos na Chechénia, por isso toda a gente sabe que não faria um filme apologista dos russos e do seu Z. Foi uma verdadeira coincidência.
Hoje em dia, a letra Z não está nas favoritas, mas é acima de tudo é isso mesmo…uma letra. Eu tenho-a no meu nome e não a vou mudar. Nem penso que a vamos banir. Espero mesmo que um dia ela perca esse significado. Mas neste momento as coisas não são fáceis e entendo o porquê da mudança do nome. Mesmo que ninguém pense que apoio os russos, a propaganda feita por eles no seu país é tão insana que não sabes do que seriam capazes para aproveitar o nome do filme e beneficiar com ele.
Para mim, neste momento, o mais importante era o ponto de vista ucraniano sobre esta questão e, para eles, é muito difícil aceitar que o festival de cinema mais importante do mundo ia abrir com essa letra no título. Rejeitar o pedido dos ucranianos seria assumir uma posição de indiferença perante a guerra.
E o que pensa deste tipo de filmes arriscados, como era o original, em que muitas vezes os próprios cineastas colocam dinheiro neles. E isto porque a indústria cada vez arrisca menos neste tipo de produção…
Acho que o filme original é um milagre, não apenas pelo dinheiro investido, mas pela qualidade que o realizador demonstrou. Foi um filme feito em 6 dias, com 25 mil dólares. É um milagre! Uma pequena história que se tornou num grande sucesso.
No caso dos menores riscos tomados por parte indústria, temos sorte de em França ainda existir esse investimento. Creio que somos dos países que menos se pode queixar disso.


