Candidatado à posteridade desde que venceu — de forma surpreendente — o Leão de Ouro no Lido, ao derrotar nomes consagrados, Father Mother Sister Brother (Pai Mãe Irmã Irmão) é um delicadíssimo diorama das agruras da convivência familiar. A narrativa estrutura-se em três segmentos que se encaixam pelo afeto… ainda que seja uma afetuosidade torta. Nesta maquete de relações parentais, arrematada pela reinvenção do hino da melancolia These Days (de Nico), Jim Jarmusch emprega a sua habitual estrutura de falatórios incontinentes sem nunca ceder às causalidades algorítmicas — isto é, às dinâmicas de causa e efeito — típicas da dramaturgia americana. Digressões e trivialidades edificam saudade, essa palavra intraduzível que, noutras línguas, se aproxima apenas através de expressões que evocam o vazio e a ausência. É esta a cola emocional que une os vértices sentimentais do filme mais intimista de um cineasta visto como sinónimo vivo da independência criativa.

A sua parceria com o montador brasileiro Affonso Gonçalves — iniciada em Only Lovers Left Alive (2013) — é crucial para o padrão de subtileza que Jarmusch procura. A montagem cria espelhos entre três histórias aparentemente paralelas, unidas apenas pela temática da família. O reflexo mais evidente surge na pergunta repetida ao longo do filme, sempre ligada a brindes com líquidos não alcoólicos — água ou chá — como um ritual de intimidade que ressoa entre personagens separadas mas emocionalmente ligadas.


Cada trama decorre num lugar distinto. A primeira — e a mais provocadora — situa-se no interior dos Estados Unidos, onde um pai idoso e solitário (Tom Waits, esplendoroso) recebe a visita da filha, Emily (Mayim Bialik), e do filho, Jeff (Adam Driver). A perda recente da mãe despoleta na dupla a urgência de perceber como o pai irá resistir a uma pobreza apenas aparente, que parece condená-lo a pequenas privações. A fotografia, assinada por Frederick Elmes e Yorick Le Saux, adopta aqui enquadramentos mais contidos, com um perfume das influências de Yasujiro Ozu — sobretudo na relação do mestre japonês com o encanto que pode nascer da rotina. Os desconfortos revelam-se nas rubricas dos diálogos, não tanto nas palavras. Os engasgos — sobretudo os de Driver — expõem as fracturas instaladas naquela paternidade distante. À maneira de um urso grisalho, o Pai de Waits quer apenas permanecer na sua toca.

Os disfarces subtis e as distrações encenadas por este homem — que esconde o dinheiro debaixo do nariz dos filhos e ostenta um Rolex no pulso — encontram eco nas filhas do segmento Mother. A Mãe interpretada por Charlotte Rampling suspeita que as suas duas crias, Timothea (Cate Blanchett) e Lilith (Vicky Krieps, brilhante), enfrentem dificuldades financeiras. Mas o que realmente pesa sobre elas são velhas asperezas nunca resolvidas.

Na despedida desta reflexão geométrica sobre contas por saldar, intitulada Sister Brother, surge o Jarmusch mais jazzista — o das narrativas melífluas de Night on Earth (1991). O filme acompanha o convívio de dois irmãos, Skye (Indya Moore) e Billy (Luka Sabbat), órfãos que revisitam memórias ao abrir caixas cheias de recordações familiares. A câmara flutua por uma Paris avessa a postais ilustrados, inquieta, como se buscasse um ritmo interior.

Caixas e fotografias marcam as três partes de Father Mother Sister Brother como vestígios de um quotidiano analógico condenado a desaparecer no mundo digital. Fiel a si mesmo, e imune ao império dos JPEGs, ao Instagram e às adesões fugazes, Jarmusch oferece um cinema que usa a saliva como água benta: para abençoar formas de afeto imperfeitas, mas capazes — ainda assim — de tocar o sublime.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
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