Depois de BAC Nord e Novembre, o francês Cédric Jiménez apresentou em Veneza Chien 51 (Zona 3), uma adaptação livre do romance homónimo de Laurent Gaudé, que encerra a sua trilogia sobre as forças da ordem.

Trilogia essa que não passou despercebida pela polémica: o primeiro filme foi, em 2012, apropriado pela extrema-direita francesa — Éric Zemmour e Marine Le Pen usaram-no como instrumento de campanha. Jiménez rejeitou qualquer ligação ideológica, sublinhando que o enredo se inspirava num escândalo real ocorrido nesse ano, envolvendo 18 membros da Brigada Anti-Crime (BAC) acusados de tráfico de droga. Ainda assim, o retrato dos subúrbios de Marselha — onde a polícia mal consegue penetrar e os traficantes impõem a sua própria lei e ordem — foi interpretado por muitos como um comentário político, o que o realizador sempre negou.

Seguiu-se Novembre (Ataque a Paris), um thriller (também ele) implacável na fisicalidade e na tensão crescente, que acompanhava a ação policial nos cinco dias que se seguiram aos atentados de 13 de novembro de 2015 em Paris.

Chegados a Chien 51, a gramática visual de Jiménez é transposta para um cenário de ficção especulativa e distópica, inspirado no livro de Laurent Gaudé — uma obra que deve tanto à herança literária de George Orwell, Maurice G. Dantec e Philip K. Dick, como à geração cyberpunk pós-Neuromancer (1984), de William Gibson, e Blade Runner, de Ridley Scott, e à trilogia noir social marselhesa de Claude Izzo.

Escrito originalmente como uma crítica ao neoliberalismo, numa espécie de resposta futurista ao que a crise grega, os coletes amarelos e as limitações de circulação pandémica trouxeram de dilemas e protestos, o romance publicado em 2022 — que o filme esvazia de crítica ideológica, redirecionando para algo mais genérico anti-governo — imagina uma Atenas do futuro, após um colapso económico e político que levou a cidade a ser comprada por uma megacorporação A antiga capital grega torna-se uma metrópole dividida em três zonas numeradas (1, 2 e 3), que refletem a hierarquia social e a separação de classes. Não é apenas a crítica ideológica que se perde: também o “estatuto” de “cão/chien” do protagonista, Zem, um agente submisso ao serviço da segurança da Zona 3 — onde vivem os excluídos —, perde parte do seu peso simbólico. Não admira, assim, a alteração do título nacional da obra, que por cá se chamará Zona 3. No filme, apenas uma vez Zem refere-se a si mesmo como “C-51”, quando tenta reverter o bloqueio imposto à sua ação policial. Um C de Chien, convenha-se.

Entre as alterações mais significativas na passagem do livro a filme encontramos o deslocar da ação de Atenas para Paris, e a introdução de uma inteligência artificial preditiva, chamada ALMA, que revoluciona a atuação policial. É ela o elemento-chave que permite ao regime manter a segregação das zonas segundo o seu estatuto social: na Zona 1 vivem as autoridades políticas, na Zona 2 a burguesia abastada, e na Zona 3 os trabalhadores e os párias. Há mecanismos ilusórios de ascensão social, como o concurso televisivo Destiny, que combina lotaria e competição e permite, anualmente, que dois habitantes da Zona 3 passem para a Zona 2.

John Mafram (Louis Garrel) é o líder de um grupo que luta contra a separação em zonas

Mantendo o realismo físico que caracteriza o seu cinema — corpos e rostos em planos próximos, câmara à mão, montagem de tensão crescente que muitas vezes recorre a crosscuts —, mas acrescentando camadas digitais e ambientes artificiais através da cenografia e iluminação, Jiménez transporta-nos para uma Paris do futuro, construída como uma forma de “realidade aumentada”: ainda reconhecível, mas transfigurada. Um mundo onde a presença humana continua no centro da imagem, ameaçada pelas máquinas (drones por todo o lado) e pela lógica da IA.

O ponto de partida de Chien 51 é o assassinato do criador da inteligência artificial que controla a cidade. O crime ocorre na Zona 2, mas as suas ramificações estendem-se à Zona 3, território marginal onde atua o WallBreaks, um grupo considerado terrorista pelo governo, liderado por John Mafram (Louis Garrel), decidido a pôr fim à divisão entre zonas. É nesse cruzamento de fronteiras que Salia (Adèle Exarchopoulos), uma agente de elite, e Zem (Gilles Lellouche), um polícia desencantado, são forçados a colaborar para desvendar o crime e enfrentar os segredos do sistema que ambos servem.

A partir daqui, Jiménez transforma Chien 51 num ensaio visual sobre os limites e perigos de um sistema judicial inteiramente dependente da tecnologia, sem nunca, porém, abordar a privatização do poder — como RoboCop fazia com a OmniCorp, por exemplo —, optando antes por criticar o sistema político que utiliza a vigilância e a predição como instrumentos de controlo e segregação, deixando afastada a cumplicidade económica que sustenta esse mesmo modelo.

No plano humano, ao seguir Salia e Zem, duas figuras aprisionadas em instituições e um regime que já não reconhecem, o filme observa o colapso ético gerado pela automatização da justiça e descrença no humano, questionando não apenas a dependência tecnológica, mas também a própria noção de autoridade — a fronteira entre o dever e a consciência individual.

Chien 51

Muitos têm chamado Cédric Jiménez “o Michael Bay francês”, pela sua relação física com o cinema e pela tendência em privilegiar o movimento, a tensão e o espetáculo visual. Mas o seu cinema é mais tenso do que explosivo e mais terreno do que épico na busca da catarse. Onde Bay filma o caos como vertigem estética, Jiménez filma-o como condição moral. A violência é física, mas também institucional; e a adrenalina surge tanto da ação quanto da pressão ética sobre as personagens. Já era assim em La French, BAC Nord e Novembre — e volta a sê-lo em Chien 51, que, embora não seja um objeto puramente escapista, revela uma visão frequentemente simplificada e populista sobre os temas e implicações que procura abordar. Essa simplicidade tira-lhe força, mas certamente trará mais audiência.

Uma nota para o duo de protagonistas, cujo visual não escapa a certas influências anime, sobretudo Adèle Exarchopoulos, presença recorrente — ainda que discreta — no cinema de Cédric Jiménez. Aqui, ela se encontra como parceira de investigação de Gilles Lellouche, com quem já trabalhou anteriormente em BAC Nord e L’Amour ouf, assinado pelo próprio. Com uma química de compatibilidade em cena bem acima dos 14% que uma aplicação neste universo lhes atribui, ambos transitam pelas suas personagens dentro do arquétipo do homme désabusé em contexto policial (ou o anti-herói desiludido do Cyberpunk) que, contra a sua vontade, é forçado a trabalhar com alguém mais jovem. As cenas entre ambos preservam uma tensão típica do cinema de ação, sem nunca resvalar para o romance, conduzindo o espectador por uma narrativa de suspense que insinua uma crítica política e tecnológica, mas que, por vezes, se perde na sua resolução apressada e simplista.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
cedric-jimenez-leva-a-sua-trilogia-policial-para-o-futuro-em-chien-51Embora não seja um objeto puramente escapista, "Chien 51" revela uma visão frequentemente simplificada e populista sobre os temas e implicações que procura abordar. Essa simplicidade tira-lhe força, mas certamente trará mais audiência.