Terra do polar, uma variação latina, francófona, das estratégias narrativas da ficção policial de Hollywood, a França renova, de tempos em tempos, o panteão de narradores que protege a sua imersão nos códigos da tensão, da investigação e da adrenalina, procurando disfarçar o sabor genérico desses “protótipos”, inspirados por “The French Connection” (“Os Incorruptíveis Contra a Droga”) (1971), por Michael Mann e até por “John Wick”. Historicamente, apareceu um divisor de águas nessa frente, o franco-grego Costa-Gavras, que redefiniu o conceito de suspense político em “Z – A Orgia do Poder” (1969). A sua linha, interrogadora de paradigmas e dialética, encontrou um herdeiro talentoso (mas ainda sem personalidade) em Cédric Jimenez. “A Rede Do Crime” (2014) e o ótimo “O Homem do Coração de Ferro“(2017) conferiram-lhe o estatuto de autor, ao privilegiar mais no desgaste de seus vigilantes, na luta pela manutenção da ordem, do que em glórias guerreiras. E o recente “Marselha Debaixo de Fogo” (2020) fez dele um campeão de bilheteria, com cerca de 2 milhões de bilhetes vendidos. Chega por isso a Cannes, e em sessão especial, com um competente (mas pouco vívido) “Novembre”. Falta-lhe, na fotografia, o mesmo dinamismo que apresenta, com fartura, na montagem.
De “A Rede do Crime” Jimenez foi buscar a sua estrela, Jean Dujardin, que desafia caricaturas e lugares comuns na representação dos agentes da lei. Gaiato por vocação, aclamado mundialmente depois de ter conquistado o Oscar de Melhor Ator com “O Artista”, em 2012, a estrela desafia a sua própria persona numa narrativa mais preocupada com política do que com adrenalina, imprimindo um ar humanista. Interpreta o papel de Fred, o líder de uma célula de investigação da Inteligência Francesa que procura dados sobre os ataques terroristas de 13 de novembro de 2015, ocorridos em Paris e Saint-Denis. Na altura, um grupo extremista foi responsável por execuções em massa, atentados suicidas, explosões e tomada de reféns. Ao todo, ocorreram três explosões e seis tiroteios, incluindo explosões perto do Stade de France, no subúrbio ao norte de Saint-Denis. O ataque mais mortal foi no teatro Bataclan, uma boate. Cerca de 130 pessoas morreram, entre elas os sete terroristas que perpetraram os ataques. Em 14 de novembro, o grupo Estado Islâmico do Iraque e do Levante assumiu a responsabilidade pelos ataques. De acordo com o “Wall Street Journal”, a onda de assassinatos foi uma retaliação pelo papel das autoridades francesas na intervenção militar na Síria e no Iraque.
Jimenez não faz generalizações morais, nem acusações levianas, na procura pelos culpados. O seu objectivo aqui é antes a reprodução de uma “dramaturgia de gabinete”, ou seja, o processo de investigação das forças policiais empenhadas em impedir um novo ataque. O protagonista é uma figura fragilizada pela hipótese da falha, que tenta, a todo custo, compreender o alcance da xenofobia no seio da sociedade francesa.
Há situações operacionais que prendem a atenção da plateia, como num bom episódio de “CSI”. Mas falta ambição plástica ao filme ao reconstituir os acontecimentos, também revistos recentemente, na Berlinale, em “Un año, una noche”, de Isaki Lacuesta.





