“Submissão é felicidade“, diz Y., a personagem de um pianista Jazz que, com a sua esposa, uma dançarina, fazem explodir no ecrã a maior bomba que o Festival de Cannes teve este ano, “Yes”. Essas palavras serviam de primeira lição para o seu recém-nascido, cuja data de nascimento enquadra-se no 8 de outubro de 2023, ou seja, um dia após o ataque do Hamas que despoletou uma reação assassina e sangrenta contra Gaza, com uma intensidade e desproporção abismais.

Dizer que “Yes” é um divórcio de Lapid com Israel e o governo de Netanyahu é eufemismo. A verdade é que é uma sequência de murros no estômago que nos faz pensar que o que o cineasta já tinha dito em relação ao seu país em “Sinónimos” e “O Joelho de Ahmed”, só para citar dois dos seus filmes, era coisa para crianças. É que em “Yes”, inserido na Quinzena dos Realizadores, mas que merecia concorrer à Palma de Ouro num certame que fala da necessidade de “ousadia” para se fazerem filmes, demonstra que Lapid manifestamente perdeu a paciência de tentar mudar por dentro as coisas, materializado um filme que critica (arrasa) o ultra consumismo, a alienação e o ultranacionalismo que explodiu em Israel logo após o ataque perpetrado pelo Hamas.

A primeira cena do filme diz logo ao que vamos: Numa festa daquelas de arromba que poderia bem ter Jep Gambardella de “A Grande Beleza” presente, onde a alta sociedade israelita, burguesa e militar, bebe, come, dança e diverte-se como não houvesse amanhã. Y e Jasmine dão um espetáculo memorável. E mesmo depois de Y cair numa piscina e acreditar-se que ficaria ali mesmo, ele regressa à tona com a ajuda da mulher. Um regresso ainda com mais força, que o faz ter um duelo de canto e dança com um general. A mulher, sempre com olho para o subir na escala social, lá lhe diz: “Deixa o general ganhar”. Y lá deixa o poderoso triunfar e aí está a tal submissão que ambos transmitem ao filho. Mas a festa não acabou aí, e Y e Jasmine, também prostitutos (na arte e no corpo), transformam-se em carne para dar prazer a uma mulher de meia idade. E enquanto os dois “esfuracam” o lóbulo da orelha da mulher, o orgasmo surge e o nosso queixo cai.

Ainda atordoados, passamos para o dia a dia do casal com o seu filho enquanto planeiam o futuro para ascender na pirâmide do poder e do dinheiro. O telefone recebe notificações. É uma daquelas que fala de mais um ataque a Gaza que matou 92 pessoas. Após o abalo – que Lapid capta com uma câmara em pleno ataque de epilepsia, sob movimentos que se repetem com a ajuda de uma montagem incandescente, a que é adicionada sons esmagadoramente opressivos – há que seguir em frente, pois Y e Jasmine estão no “lado que vive bem”, como diz o primeiro capítulo. O filme movimenta-se por mais capítulos, todos orgíacos numa pornografia do consumismo e nacionalismo, em terreno pantanoso da “falta de noção”, da ausência de memória e de um espírito de vingança exterminadora.

Lapid tem consciência do que se passa e explode no ecrã numa crítica radioativa à alienação e ao declínio moral vertiginoso a que Israel sucumbiu, quebrando frequentemente a quarta parede, como quando Y. diz que até a audiência do filme que estamos a ver odeia o seu país. E, depois disso, ele começa a preparar o novo hino de Israel, que, após o dia 7 de outubro, é um festim musical que destila ódio.

O filme de Lapid chama-se “Yes”, mas na verdade é um Não. Um basta e um adeus a Israel daquele cineasta que tantas vezes foi acusado de morder a mão a quem o alimenta. Absolutamente imperdível.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
yes-a-pornografia-do-declinio-moralLapid tem consciência do que se passa e explode no ecrã numa crítica radioativa à alienação e ao declínio moral vertiginoso a que Israel sucumbiu