Cannes vestiu-se a rigor para assistir à versão frenética e extravagante que Baz Luhrmann fez do clássico de Scott Fitzgerald, O Grande Gatsby, o tal mito sobre o american dream.
Como seria de esperar deste australiano com o condão de espevitar o espetáculo, temos muito brilho, lantejoula, números musicais e, claro, o 3D. No entanto, nem é pela adoção suave da perspetiva isométrica que o filme deixa de arrancar os adjetivos de louvor, nem sequer pela escolha de Leo DiCaprio como Gatsby. Pois, convenhamos, Leo é a escolha incontornável para encarnar o magnata que fez tudo por amor de uma mulher. Já menos enquadrado estará um Tobey Maguire, num papel do amigo e narrador Nick Carraway. Nem tão pouco Carey Mulligan consegue chegar ao nível que já dela se espera.
Pena é quando Luhrmann pretende agarrar o efeito de clássico lá para a segunda metade do filme já o efeito garrido daquela manta visual, num arriscado ritmo hip-hop, ao som de Jay Z e Beyoncé, se torne mais difícil de superar. Seria excessivo tratar O Grande Gatsby como um mau filme, tal como tem sido injusto desprezar a anterior versão de Jack Clayton, de 1974, com Robert Redford. Talvez um Luhrmann mais contido permitisse agigantar mais a figura de Gatsby/Leonardo e, talvez aí, tentar roçar a obra-prima.

Paulo Portugal

