Depois de realizar um conjunto de curtas-metragens desde 2016, quando se estreou com “Cavello”, e de dar nas vistas (com múltiplas premiações) com “L’été et tout le reste” (2018) e “She Used To Sing Here” (2021), o holandês Sven Bresser visita agora a Semana da Crítica do Festival de Cannes com um drama psicológico que toca no género policial, saltando para místico e fantástico sem perder, na sua base, o estudo de uma personagem e de uma comunidade.
“Reedland”, a sua primeira longa-metragem, é uma quadro vivo brutal – esteticamente inspirado em múltiplos pintores holandeses do século XIX e XX-, que segue a rota de uma busca pelo “mal” a partir de uma paisagem hipnotizante e avassaladora na região de Weerribben-Wieden. É a partir daí que Bresser partilha com o espectador um mundo milimetricamente ritualizado que é rasgado pelo imprevisto, tudo através da história de um homem, já idoso e de aparência áspera, que mantém o coração e o sentido de justiça no lugar certo, mesmo que esses sentimentos venham do peso da culpa. Entregue a uma rotina permanente de cortar, juntar e incendiar canas numa vasta região selvagem de um pântano, Johan (Gerrit Knobbe), que cuida ainda da neta de 11 anos, vai sentir um impulso incontrolável de investigar o estranho caso do assassinato de uma jovem bastante perto da zona onde vive e transita para a lavoura do dia. Instigado a investigar o “mal” que invadiu um território que considera e sente como seu, e atuando num registo ritualizado de trabalho e relações, Johan até cede inicialmente à tentação de apontar do dedo acusatório do crime a uma vizinhança ancestral indesejada, mas, progressivamente, numa jornada tão interna como externa, vai perceber que afinal o “mal” está mais próximo daquilo que pensava, tendo de tomar decisões essenciais pela sua própria sobrevivência.
Concentrando-se em criar uma atmosfera de estranheza que se embrenha na “carne” e na “pele” desde os primeiros momentos do seu filme, Bard busca a tradição holandesa de hiper-realismo que incomoda e causa nervosismo no espectador, sem nunca realmente dar respostas concretas a cada passo da sua viagem. Nesse sentido, o realizador foca-se no burburinho interno que corrói silenciosamente Johan, um homem que vê o seu pedaço de terra (região) cada vez mais longe do seu controle, e não apenas pelo assassinato, mas também por decisões governativas e económicas neoliberais. Gerrit Knobbe, que assume o protagonismo, é impressionante na tarefa de através dos gestos, expressões e desenho corporal dizer mais que mil palavras escritas num guião. E o mesmo se aplica à região onde tudo foi filmado. Um espaço que carrega nele anos e anos de histórias e legados humanos ligados a ele.
Nisto, e no final, “Reedland” acabou por ser mais uma boa notícia a sair da Semana da Crítica do Festival de Cannes, secção paralela onde “L’intéret d’Adam” já tinha provocado regozijo.



















