Habituado a lidar com o tema da morte de forma descontraída, como se viu em “Nada nas Mãos” (2021), onde seguia um agente funerário deprimido que pedia conselhos de vida aos seus clientes falecidos, Paolo Marinou-Blanco volta a assinar uma comédia negra sobre o tema, desta vez na forma de “Sonhar Com Leões”, que teve a sua estreia na competição da Semana da Crítica do Tallinn Black Nights.
Suicidar-se não é tão fácil como pensamos, diz-nos Gilda (Denise Fraga), a protagonista deste filme que, quebrando frequentemente a quarta parede, nos vai explicando que já tentou várias vezes pôr fim à vida, depois de ter sido diagnosticada com uma doença terminal incapacitante que apenas lhe permitirá viver mais cerca de ano e meio. Grupos de ajuda não a ajudam e o seu companheiro (Roberto Bomtempo) também demonstra sinais de cansaço na convivência com ela devido às sucessivas tentativas falhadas em se matar.
Logo desde o início, Paolo Marinou-Blanco mostra ao espectador ao que vem e, além de abordar de forma descontraída o tema da morte e da eutanásia, faz também uma paródia ao capitalismo através da existência de uma empresa, a Joy Transition International, que está preparada a ajudar todos os que querem por fim à vida, desde que paguem chorudos honorários. Claro está que, neste universo, esse negócio é ilegal, por isso a empresa reúne uma série de candidatos a morrerem num armazém algures em Lisboa, fornecendo-lhes máscaras de sorrisos surreais que, caso a polícia entre em ação, devem servir de desculpa/adereço para o ensaio de uma peça teatral. É nesse grupo de candidatos à morte que Gilda e Amadeu (João Nunes Monteiro, de “Mosquito”, a interpretar o papel de um homem com “afinidade” com os mortos), uma dupla que forma uma aliança pela morte assistida, partindo eventualmente para Espanha – porque a Suíça os recusou – para se encontrarem com uma médica que os vai ajudar no objetivo.
A morte e a eutanásia têm produzido inúmeros filmes neste milénio que assentam fundamentalmente numa toada dramática ao qual uma mensagem política e social para os governos lidarem seriamente com o assunto está inerente. “Polvo Seran”, de Carlos Garcia Marquez, ou “The Room Next Door”, de Pedro Almodóvar, são apenas dois exemplos de filmes que abordam a questão da eutanásia em 2024, mas “Sonhar Com Os Leões” – que encontrou o seu título numa passagem do livro “O Velho e o Mar” de Ernest Hemingway) – têm mais a ver no tom e espírito com a série “After Life”, de Ricky Gervais, ou “Dick Johnson is Dead”, de Kirsten Johnson. A sua forma descontraída, sem nunca perder uma luz de seriedade, utiliza o humor (bem negro) para refletir o desespero e o desejo humano de controlar o seu fim – forças motoras onde Denise Fraga se encaixa em estado de graça e João Nunes serve de amparo emocional. A esta dupla junta-se uma série de personagens secundárias que enrique o filme, como Victoria Guerra, que contribui como a filha do dono de uma funerária, que está sempre a tirar selfies para promover o negócio; Sandra Faleiro no papel da “formadora” da Joy Transition; e Joana Ribeiro, como uma assistente da Joy Transition que não se importa de ganhar uns trocos por fora.
Se nos Encontros do Cinema Português, ano após anos, diz-se que Portugal precisa de lançar mais comédias nas suas salas para conseguir melhores resultados no box-office, Paolo Marinou-Blanco, sob a produção, entre outros, de Justin Amorim, responde com “Sonhar com os Leões”, um objeto raro dentro do cinema nacional que, seja através do humor, seja na sua forma existencial, certamente provocará risos e reflexões sobre o que desejamos caso sejamos confrontados com o que Gilda tem de superar.



















