Foi com a apresentação de mais de quarenta projetos com produção portuguesa, um prémio atribuído à Promenade Films de Justin Amorim, e um debate sobre como levar mais público às salas para ver filmes portugueses que decorreu ontem, 5 de junho, no Cinema Vasco da Gama, a 9ª edição dos Encontros do Cinema Português, evento que assume a sua orientação para a indústria, cativando a atenção de produtores, distribuidores e exibidores.
Foi com referências ao “legacy” (sim, foi a terminologia utilizada) do cinema nacional, nas palavras de Susanna Barbato da NOS Audiovisuais, que abriu um evento onde alguns dos presentes apresentaram filmes, outros filmes que também vão ser séries televisivas, e outros ainda que encontraram na palavra “produto” o termo que preferiram usar. Antes ainda da apresentação dos projetos selecionados para esta 9ª edição, foi explicado o prémio atribuído pelo Canal Hollywood a um filme com “perfil de blockbuster”, com potencial de ultrapassar os 100 mil espectadores nas salas de cinema.
E o vencedor dessa distinção foi “Hotel Amor”, filme de Hermano Moreira, que recentemente levou até às salas “Amo-te Imenso!”. Com nomes no elenco como Jéssica Athayde, Margarida Corceiro, Vera Moura, Júlia Palha e Lucas Dutra, a comédia acompanha a gerente de um hotel, Catarina, interpretada por Jéssica Athayde, que se encontra à beira de um colapso nervoso devido a problemas com os hóspedes excêntricos e os empregados que comanda. “É tudo doido”, afirmou Justin Amorim, acrescentando que espera estrear o filme ainda este ano.



Para além de muitos projetos que já tiveram a sua estreia mundial no circuito de festivais, como “Grand Tour” (Cannes), “A Savana e a Montanha” (Cannes), “Banzo” (IndieLisboa), “Onde está o Pessoa?” (Porto/Post/Doc), “Estamos no Ar” (Roterdão), “Ospina Cali Colombia” (DocLisboa), “Astrakan 79” (Visions du Réel), “Mãos no Fogo”(Berlim), “Nós Dança” (Doclisboa), “Ubu” (Leffest), “A Pedra Sonha Dar Flor” (BAFICI), “Em Ano de Safra” (Doclisboa), “O Poeta Rei” (Doclisboa), “O Melhor dos Mundos“ (IndieLisboa), “Sobreviventes” (IndieLisboa) e “Na Mata dos Medos” (FESTin), nos Encontros do Cinema Português foram apresentadas as primeiras imagens de produções como “Rosa Brava”, de Hugo Diogo, um “revenge movie” onde Luciana Abreu será vítima de três homens, sobrevive e inicia um processo de justiça pelas próprias mãos. “A Luciana esteve três meses a treinar para as cenas de luta. E vamos ter uma equipa internacional a fazer essas cenas”, explicou uma representante da Lanterna de Pedra, produtora do filme. Da mesma “casa” vai chegar até nós um filme em torno da cantora Cesária Évora (Cesária Évora Vida e Obra), além de “Idade da Pedra”, uma comédia pré-histórica que se inspira em títulos como “Os Flintstones” e “Os Deuses Devem Estar Loucos” para colocar nortenhos e alentejanos em confronto após dois arqueólogos amadores deixarem cair um smartphone num buraco temporal.

Com toques de thriller psicológico sci-fi, Nuno Bernardo (Gabriel) apresentou “A Pianista”, uma história de clonagem “cheia de melancolia” e alguns “toques de erotismo” que evocam filmes dos anos 80 e 90 como “Fatal Attraction” e “Basic Instinct”. Nele seguimos Ana (Teresa Tavares), uma pianista que tem de lidar com a morte do marido e que recebe, via redes sociais, uma proposta tentadora para o ressuscitar. Também com toque de thriller, mas com uma forte componente de melodrama, “Sombras”, de Jorge Cramez, com Vcitória Guerra no elenco, conta a história de um casal que recebe uma menina em casa e que vê a sua vida se transformar completamente.
No campo do drama, Sérgio Graciano apresentou o primeiro dos dois filmes que tem na agenda, “O Meu Jardim”, com Miguel Borges e Bruna Quintas no elenco. O filme explora a questão do amor, os seus limites, e quando é que o amor deixa de ser amor e se transforma noutra coisa. Já o realizador Luís Campos, em estreia nas longas-metragens, falou de “Terra Vil”, drama coming-of-age sobre um rapaz de 12 anos, João, que vive sozinho com o pai depois da mãe o abandonar. Quando ele assiste a uma atitude condenável por parte do pai, vai ter de tomar uma decisão que vai mudar a sua relação com todos, em particular com as vizinhas.
Ainda no drama, “O Último Verão”, de João Nuno Pinto (Mosquito), foi dos projetos que mais impressionou, mesmo que o trabalho de pós-produção não esteja ainda finalizado. Seguindo três perspetivas da mesma história, a partir de outras tantas personagens, o filme segue uma família que tem de vender a sua propriedade propriedade rural, mas que decide juntar-se uma última vez no local. Em pleno verão, os incêndios aproximam-se, o grupo fica encerrado na propriedade, enquanto uma estranha falta de água começa a provocar uma série de conflitos. José Pimentão, Beatriz Batarda e Rita Cabaço fazem parte do elenco.

Personagens e eventos históricos estiveram também em foco nos diversos projetos apresentados, como “A Travessia”, de Fernando Vendrell, filme e série sobre Sacadura Cabral e Gago Coutinho, ou “Camarada Cunhal”, de Sérgio Graciano, sobre o histórico líder comunista português Álvaro Cunhal.
Já Ivo Ferreira (Cartas da Guerra) entra – em modo série e filme – pelos anos 80 adentro com “um grupo de jovens, muito impregnado com as ideias de Abril. Convencidos que o fascismo vai regressar, eles acabam por se juntar a uma organização de extrema esquerda. Porém, quando dão conta, fazem parte de uma organização armada revolucionária terrorista. Esta organização é inspirada numa real que existiu em Portugal [FP 25], alegadamente responsável por uma série de mortes, atentados à bomba e ações de recolha de fundos que incluíam assaltos bancos “. Ciente da polémica que se adivinha quando estrear, quer no que concerne à direita ou esquerda política em Portugal, Ivo Ferreira sublinhou que “o cinema não pode, nem deve ter medo de tocar em assuntos da nossa história recente, mesmo que existam feridas por sarar”.
Certamente também polémico será “O Presidente”, a primeira longa-metragem de ficção de José Filipe Costa (Prazer, Camaradas!). O filme debruça-se sobre António de Oliveira Salazar, desde o momento em que caiu da cadeira até que morreu. “É sobre um ditador que acredita que ainda está no comando do país, mas que na verdade não está. Toda a gente à volta dele finge que ele continua a ser o líder, mas já não é. É um filme sobre uma época histórica, mas também sobre a ilusão”, afirmou Filipa Reis, da produtora Uma Pedra no Sapato, a mesma de “Grand Tour“, “Banzo” e “Ubu“. Em formato híbrido vai ainda chegar às salas “Damas”, de Cláudia Alves, em torno de enfermeiras portuguesas que marcaram presença na Primeira Guerra Mundial, enquanto Ana Pérez-Quiroga revisita, em “De Que casa Eres”, a história da mãe e da tia, abordando nesse trajeto o exílio de 80 mil crianças republicanas nos tempos da guerra civil espanhola.

Houve ainda tempo para vermos imagens de “Cartas Telepáticas” de Edgar Pêra, onde o cineasta utiliza Inteligência Artificial para colocar em diálogo dois dos seus escritores preferidos, Fernando Pessoa e H.P. Lovecraft, bem como os primeiros 10 minutos de “Hanami”, o novo filme de Denise Fernandes (Nha Mila). Filmado em Cabo Verde, na Ilha do Fogo, o filme segue a história de uma menina durante a infância e a adolescência. Também com ambição de fazer a rota internacional de festivais, encontramos “Educação Sentimental”, de João Rosas, cuja ação se passa em Lisboa num ambiente repleto de jovens.
Entretanto, Sol Carvalho (Mbata Bata) regressa com “O Ancoradouro do Tempo”, uma adaptação do livro de Mia Couto, “A Varanda do Frangipani”; Paolo Marinou-Blanco assina a tragicomédia negra sobre a Eutanásia, “Sonhar como os Leões”; Sónia Balacó e Zé Bernardino trazem até nós “Prisma”, que segue um dia na vida de cinco personagens, na abertura de uma exposição numa galeria de arte; e Pedro Varela conta em “Vidro Fumê” a história de uma jovem raptada no Rio de Janeiro, juntamente com o namorado. E há ainda “Infanticidas”, uma experimentação sobre a “amizade e o crescer feita com quatro atores, a partir de uma peça homónima escrita pelo Luís Lobão, que foi levada a cena no Teatro da Comuna, em 2018“.
Filmes com César Mourão e Edgar Madeira fizeram vibrar a audiência, pela ambição claramente mais comercial. Mourão estreia-se na cadeira de realizador com “Podia ter esperado por agosto“, uma comédia romântica que também protagoniza, ao lado de Júlia Palha e Kevin Dias, e que envolve uma ideia rocambolesca de fazer regressar à aldeia – antes do verão – a mulher (Palha) por quem Xavier (Mourão) está loucamente apaixonado. Já Eduardo Madeira, invocando o espírito de Peter Sellers e os filmes da saga James Bond, promete encher as salas com “Vive e Deixa Andar”, comédia que poderá ter continuação nos cinemas caso tenha sucesso nas bilheteiras.
Finalmente, destaque ainda para os documentários “O Palácio de Cidadãos”, que acompanha os bastidores e o trabalho parlamentar no Palácio de São Bento; “Soma das Partes”, sobre a orquestra Gulbenkian; “O Voo do Crocodilo – O Timor de Ruy Cinatti”, em torno do poeta, antropólogo e agrónomo português; “Yupumá”, que olha para um povo das terras baixas da Amazónia e para um pajé aprendiz que se prepara para abandonar a aldeia e seguir para a Europa; e “Caixa de Resistência”, em torno de Fernando Ruiz Vergara, um cineasta autodidata, esmagado pela censura, que deixou dezenas de esboços de filmes que nunca chegou a realizar.
Os Encontros do Cinema Português é uma iniciativa promovida pela NOS Audiovisuais, com o apoio do Instituto de Cinema e Audiovisual (ICA). ICA que ainda ouviu queixas da realizadora Rita Nunes (O Melhor dos Mundos), devido à disparidade entre homens e mulheres na atribuição de fundos a longas-metragens de ficção, com apenas 9 mulheres, de 2013 a 2023, a receberem apoio do instituto.

