No momento que Cannes outorgou o prémio de Melhor Realização a Olivier Assayas por Personal Shopper, uma trama espectral lançada em 2016 – mesmo ano do sombrio The Neon Demonna competição oficial – foi declarada a boa recepção dos grandes festivais do audiovisual a “filmes de fantasmas”. A própria Croisette já havia flertado com ectoplasmas antes, por trilhas latino-americanas, com a escolha de “Trabalhar Cansa” (2011) na sua Un Certain Regard.

Não é de se estranhar, portanto, a presença de El Llanto na disputa pela Concha de Ouro de 2024, em San Sebastián. Lá mesmo, em 2021, outro exemplar da fantasia sinistra, La Abuela, de Paco Plaza, lutou pelos prémios, ampliando as vagas para o terror em espaços de debate sobre tendências audiovisuais. Tem sido mais costumeira, em eventos dessa ordem, a participação de exemplares do body horror, como Titane (Palma de Ouro de 2021) e The Substance(láurea de Melhor Argumento na Côte d’Azur), também projetado em Donostia. Essa linhagem carrega o legado de um artesão autoral de renome, o canadiano David Cronenberg (A Mosca), porém, outras vertentes horríficas crescem nas maratonas cinéfilas do Velho Mundo. A inclusão da assustadora longa-metragem de Pedro Martín-Calero – um cineasta de Vaiadollid – entre os 16 concorrentes aos troféus bascos deste ano ressalta essa conquista de território.

Foge-se um pouco dos jump scares (a estratégia do susto) quando se fala de terrores de linha mais intelectualizada, fugindo de pérolas pop como The Conjuring 2 (2016), de James Wan, que aparou o género quando o assunto é causar medo. A recorrência do chamado “extra-ordinário’ (seara na qual acontecimentos misteriosos jamais são explicados pelas vias sobrenaturais ou científicas, como Swallow ou A Febre) colaboraram muito para tornar a estratégia dos calafrios algo pirosos, mais aplicáveis ao cinema de massas. O maior mérito de Martín-Calero, nesse debate, é ignorar essa atitude pernóstica do cinema fantástico e apostar em situações de gelar a espinha, por vias metafísicas, sem comprometer as reflexões sociais.

Elegantemente fotografado por Constanza Sandoval,El Llantocruza, em etapas diferentes da trama, o desespero de quatro mulheres fustigadas pela mesma manifestação do Além: uma figura de feições idosas, com força para abusar de corpos fragilizados por pressões psicológicas. Outras assombrações desse naipe vão aparecendo, precedidas por um ruído de pranto vindo do nada e sem causa aparente. Logo no início, uma jovem argentina, adotada ainda em bebé, e levada a terras ibéricas, começa a notar uma aparição nas fotos que tira, no reflexo do espelho. A hipótese de se tratar de uma esquizofrenia é derrubada sem qualquer pruído intelectual pela película, com sequências eletrizantes de pessoas atacadas por espíritos e pescoços quebrados. Subtileza não cabe aqui. O que não (lhe) causa dano. Subtileza é um substantivo que, por vezes, faz mal ao Mal, na ficção, quando a ideia é propor sinestesias que nos tirem das condições padrão de temperatura e pressão. O facto de não ser subtil não impede El Llantode arranhar discussões urgentes como a sororidade, o suicídio e o feminicídio. O seu ponto fraco está na montagem que, muitas vezes, ralenta os espaços de tensão, de modo a alongar em demasia enredos secundários.

 

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonesa
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