Declarada independente em 1810, a Colômbia tem vivido, desde 1812, sob as marcas de mais de dezena de guerras civis sucessivas, a começar pela chamada Guerra Civil de Nova Granada (1812-14), até à mais recente, e ainda em marcha (1964-), que opõe governo, paramilitares, rebeldes de extrema esquerda e carteis de narcotráfico. Quer a literatura, como o cinema, têm tocado frequentemente na temática deste último conflito aberto, que deixou (e deixa) cicatrizes por todo o território e nas suas gentes, sejam descendentes dos nativos ou dos colonizadores espanhóis.
A grande maioria dos filmes lançados, principalmente nas últimas duas décadas, como “La Playa D.C”, “La Sirga” ou “Valley of Souls”, têm se esforçado em explorar as consequências e efeitos perversos, duradouros e muitas vezes invisíveis de um conflito armado que não deixou ninguém incólume. O mesmo sucede com este “Horizonte”, exibido no Festival de Toronto, mas aqui o termo “fantasmas do passado” ganha um sentido literal pois, efetivamente, seguimos duas personagens, uma mãe e um filho, falecidos no conflito e que agora perambulam pelas ruínas de um território devastado à procura de uma qualquer redenção.
César Augusto Acevedo, que brilhou em 2015 com “La tierra y la sombra”, faz de “Horizonte” ou seu “Coração das Trevas“, um drama, um filme de guerra, um objeto que aborda a exploração humana ao serviço de uma “causa” antinatural, e que parte do real para atingir o sobrenatural, numa viagem com tanto de cinema como política e filosofia.
É a partir da chegada de Basilio (Claudio Cataño), um soldado de olhos encerrados pelas marcas da guerra, que bate à porta da casa da mãe (Paulina Garcia), que iniciamos uma viagem pelas brumas do conflito, enfrentando os dois, na sua dura viagem, vítimas e carrascos, os quais, a maioria das vezes, se confundem, mostrando a guerra como ato de transformação dos indivíduos, sempre com a sobrevivência, seja deles ou de uma ideologia, como desígnio final.
Construído com muitos dos códigos de género, o filme abertamente toca o horror nesta jornada de pesadelo que tanto graficamente é explícita, como psicologicamente se abstrai pelo terreno do metafísico. A direção de fotografia de Mateo Guzmán Sánchez aproveita o nevoeiro e neblina como elemento-chave para uma viagem soturna pelo pior que existe na humanidade, cabendo a Marcela Gómez Montoya, na direção artística, a movimentação geográfica por ruínas, escombros e espaços abandonados, envolvidos por paisagens avassaladoras, que igualmente refletem o vazio atordoante que está dentro destas almas do “além” que revivem os horrores da guerra pela eternidade fora.
Uma última nota para a banda-sonora de Harry Allouche e para o arrojo de um cineasta que, apesar do virtuosismo artístico, tem nele e no seu coração as marcas do desespero de uma nação que tanto se habituou à morte que esqueceu completamente o valor da vida.





















