Tal como já tinha adiantado na minha avaliação a «La Sirga»[ler crítica], existe claramente uma nova vaga de cinema colombiano interessada em sair do cinema narcotráfico e em explorar as consequências e efeitos perversos, duradouros e muitas vezes invisíveis do conflito armado que abala a Colômbia há décadas. Em «La Playa D.C.», primeiro trabalho de Juan Andres Arango, estes elementos estão presentes como o combustível para que a obra tenha um ponto de partida e algum background, mas são outras temáticas e problemas da sociedade colombiana atual, em especial dos afrodescendentes, que movimentam uma história contada de uma forma profundamente europeia, em especial na linha de trabalhos dos Dardenne e de Ken Loach.

Na essência, em «La Playa D.C.» seguimos a história de três irmãos, ainda que tudo seja visto através do acompanhamento mais cerrado a um deles, Tomas (Luis Carlos Guevara) – o do meio, que tal como os outros abandonou uma localidade do interior, Buenaventura, e seguiu para a selva urbana de Bogotá. Aqui, e tal como em algumas outras obras presentes no Festival de Roterdão (Nairobi Half Life, por exemplo), o choque civilizacional entre o ingénuo (mas já vivido) Tomas, que vem do campo, e o modo de vida na cidade (cheia de gangues, crime, droga, pobreza, racismo e truques de sobrevivência), são tratados com um pulso maioritariamente cru e realista (quase documental) por Arango, contando para isso com a ajuda do cinematografo Nicolas Canniccioni para aprofundar e carregar a visibilidade desses problemas e dos contrastes. 

A isto, Arango – que também escreveu o argumento – acrescenta ao irmão mais velho, Chaco (James Solis), a árdua tarefa de tutor de Tomas neste seu novo habitat e vida. E se Chaco já passou por problemas com a lei, Jairo (Andres Murillo), o irmão mais novo, parece perdido para as drogas e para o crime. No meio deles está então Tomas, que acaba por ser aquele que procura redefinir a sua posição no mundo, seja através do objetivo de ter um emprego a cortar cabelos, seja em arranjar uma namorada, seja na busca de zelar pelos irmãos de maneira a salvá-los como um família e com isso salvar-se a si mesmo. 

Porém, e com o realismo como mote, esta tarefa vai-se revelar hercúlea, havendo claramente uma postura dura e crua de um universo colombiano habituado a criar vítimas, estando os afro-colombianos em particular desvantagem no país em relação aos brancos e aos latinos.

Assim, «La Playa D.C.» consegue ser uma obra absorvente sobre uma geração que terá de palmilhar muito caminho até que tenha as mesmas condições e hipóteses num país ainda com demasiadas feridas (a guerra interna) e doenças (narcotráfico e crime) para criar uma sociedade mais justa. E mesmo que de certa maneira tenha faltado a Arango algum arrojo na forma de trabalhar com o material que dispunha, especialmente em alguns momento chave, a verdade é que deixa muito boas indicações para o futuro.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
iff-roterdao-la-playa-d-c-por-jorge-pereira «La Playa D.C.» consegue ser uma obra absorvente sobre uma geração que terá de palmilhar muito caminho até que tenha as mesmas condições e hipóteses num país ainda com demasiadas feridas (a guerra interna) e doenças (narcotráfico e crime) para criar uma sociedade mais justa.