Não fosse um terceiro ato atabalhoado e apressado que parece dessintonizado em relação ao que vimos até então, no qual prima uma banda-sonora anticlímax a puxar à manipulação emocional, quando tal nem era requerido para nos fazer sentir o calvário da Norah que dá título a este filme de Tawfik Alzaidi, e tínhamos aqui um dos melhores exemplos do que o cinema saudita nos entregou na era pós-“Wadjda“.

Com a revitalização de uma indústria de cinema, defunta há várias décadas, pois qualquer forma de arte era vista como “obra do diabo”, a sétima arte da Arábia Saudita deixou de ter episódios aqui e ali de produções esporádicas (que muitos anos estiveram entregues a Haifaa al-Mansour) para passar a ter uma presença recorrente em festivais de cinema internacionais, como se viu recentemente com “Mandoob-Night Courier”, que passou pelos festivais de Toronto e Turim) ou com este “Norah”, inserido na Un Certain Regard em Cannes.

Passado em 1996, quando todas as formas de arte na Arábia Saudita estavam condicionadas pelo tradicionalismo cultural e religioso, “Norah” leva-nos até uma aldeia remota, onde chega um professor vindo da cidade, enviado pelo próprio governo. A chegada deste homem de “óculos escuros” é visto com alegria por uns, mas desconfiança por parte de outros, aversos à mudança e evolução, até mesmo no que diz respeito à chegada da eletricidade. Com uma pequena turma com que lidar, o professor passa os seus dias entre a escola, a sua casa e única mercearia do local, na qual discretamente vai comprando tabaco. Quando após fazer um exame aos seus alunos, um deles supera com distinção, ele decide atribuir como prémio um retrato desenhado do rapaz, ele vai chamar a atenção da irmã mais velha do miúdo, Norah, que também começa a sonhar com o seu retrato pintado.

Utilizando o merceeiro como intermediário e a sua mercearia como estúdio de pintura, as duas personagens desenvolvem conversas sobre o amor à arte, recalcados pela sociedade saudita, especialmente a mulher, cuja família já lhe destinou um esposo no local. Mas como se pinta a mulher por baixo da burca e como se expressa o amor por algo proibido e que é visto como infernal? Tawfik consegue mostrar-nos isso num ritmo pausado e com personagens secundárias que evidenciam os contrastes do pensamento, do conflito entre evolução e o tradicional, além de arte, amor e o que é viver como mulher neste universo que lhe atribui papéis redutores. E na realização ele faz um bom balanço entre o clássico e o moderno, num jogo sistemático de planos que elevam as personagens em relação ao sistema em vigor e à paisagem magnânima que as circunda.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
norah-a-arte-como-escape-ao-destinoNão fosse um terceiro ato atabalhoado e apressado que parece dessintonizado em relação ao que vimos até então, e tínhamos aqui um dos melhores exemplos do que o cinema saudita nos entregou na era pós "Wadjda".