De 1983 a 2018, as salas de cinema sauditas eram inexistentes e trabalhos no país ligados à 7ª arte uma miragem. Depois de mudanças estratégicas, incluindo um plano – Visão 2030 – que instigava à diversificação das indústrias não petrolíferas do país, as salas de cinema expandiram-se, bem como a produção e distribuição de obras, que permitiram que filmes como este “Mandoob” (Night Courier), em competição no Festival de Turim, pudessem existir. 

Claro que, antes dele, houve precursores e até pioneiros, como o inesquecível “Wadja” ou “Perfect Candidate”, ambos da saudita Haifaa al-Mansour, mas “Mandoob” tem um mérito de entrar pelo cinema de género a dentro e visitar o submundo de um país que muitas vezes apenas se associa à riqueza, esquecendo-se da classe trabalhadora. 

Fazendo lembrar “Nightcrawler” e até mesmo o marroquino “Hounds”, “Mandoob” desenrola-se praticamente durante a noite e segue o trabalhador de um call center que, depois da demissão por agressão ao patrão, embarca no mundo das entregas (à la Uber Eats), acabando por tropeçar numa rede de tráfico de álcool.

A vida de Fahad (Mohammed Aldokhei) não é fácil. Perdeu o emprego, o pai está doente, a irmã regressou a casa e tudo o que está conectado com a sua saúde financeira dá sinais de doença. Além disso, enamorou-se por uma mulher que trabalhava consigo e frequentemente ambiciona viver um pouco da boa vida junto das elites, mesmo que não tenha onde cair morto. Por isso mesmo, quando numa entrega de alfaces se cruza com um traficante de bebidas alcoólicas (ilegais no país), ele vê nisso uma oportunidade de arranjar dinheiro. Um escape que lhe vai trazer uma série de problemas.

Sempre usando a noite para mostrar uma Riade raramente vista nas salas de cinema, e um pouco como vimos no já citado “Hounds”, “Mandoob” carrega sempre em sim o nervoso miudinho colado aos thrillers, deixando pelo caminho algumas questões relativamente às disparidades sociais no país e como a entrada de vários elementos da sociedade ocidental funcionou igualmente como trunfo na demarcação hierarquia das próprias classes. Por isso mesmo, Fahad não tem apenas de prestar subserviência ao sheik que a certa altura visita para tentar ajudar o pai, mas sente-se igualmente diminuído perante uma antiga colega de trabalho, cujos amigos frequentam os locais mais “fancy” da cidade.

Mantendo o espectador agarrado à cadeira durante quase duas horas, Ali Kalthami, que faz parte da sensação saudita do YouTube “Telfaz 11”, cria um thriller nervoso e coeso, mas que simultaneamente funciona como estudo de personagem e de dilemas morais, tudo num país onde não há apenas ricos, mas igualmente aqueles que os servem.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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