Ao quinto filme, Rainer Sarnet junta kung fu, heavy metal e cristianismo ortodoxo para articular uma comédia estoniana fortemente estilizada, passada numa época onde “tudo o que era divertido é proibido”.

Estamos em 1973, na Estónia, ainda sob o jugo da URSS, e Rafael (Ursel Tilk) é um soldado na fronteira com a China. Um dia, um trio de chineses com pinta de rockstars ataca o local recorrendo a artes marciais, deixando-o fascinado com a agilidade e coolness que o Kung Fu misturado com a música pesada têm. Decidido a seguir a via da aprendizagem, ele parte para um mosteiro repleto de monges dissidentes, mas será ele capaz de aprender a lição da humildade e lutar contra os demónios (como Rita, a miúda que vende bebidas na localidade) que se lhe afiguram pela frente? Será que um “animal” como Rafael consegue sobreviver “enjaulado”?

Recorrendo muitas vezes aos códigos do cinema de animação, particularmente no trabalho sonoro adjacente a humor físico (onde não faltam tiradas slapstick), “The Invisible Fight” é um petisco pop com o seu quê de Stephen Chow capaz de mover massas nas sessões da meia-noite dos festivais e cineclubes, antevendo-se o nascimento de um culto em relação a ele. Mas, como tantos outros filmes fora da caixa, é um objeto que se esgota rapidamente, mesmo que a “luta invisível” que Rafael tem de travar, a caminho do amadurecimento, exija a ultrapassagem de diversos estágios, que o próprio cineasta partilha com o espectador através de intertítulos.

Na essência, é um filme divertido, arrojado, metafórico à relação à URSS, vindo de um connoisseur do cinema de género (nota-se trabalho de casa devido a inúmeras referências a obras de artes marciais, Black Sabbath e a rock estoniano), passando o seu filme da ação marcial ao drama, do romance à comédia slapstick num ápice. 

No fundo, o filme que teve a sua estreia mundial no Festival de Locarno em 2023 é tudo aquilo que Giona A. Nazzaro, diretor artístico do certame, aprecia e que o levou a escolhê-lo para a competição principal . Um risco, bem grande, tal como foi a escolha da comédia islandesa Polícia Mauzão, Polícia Bonzão, estreada há dois anos no evento suíço e que colocava dois policias em colisão na perseguição a um grupo de criminosos, antes de se apaixonarem um pelo outro. Mas estes são riscos calculados, claramente com um retorno estético, narrativo e, acima de tudo, cinemático.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/ugfz
Pontuação Geral
Jorge Pereira
the-invisible-fight-humildade-e-kung-fu-na-antiga-urssUm filme divertido, arrojado, metafórico à relação à URSS, vindo de um connoisseur do cinema de género, mas que se esgota em si rapidamente