Hannes Þór Halldórsson: da baliza da Islândia ao cinema de ação

"Polícia Mauzão, Polícia Bonzão" estreia nos cinemas e no streaming a 1 dezembro

(Fotos: Divulgação)

Guarda-redes profissional e internacional pela Islândia (mais de 70 presenças em competição), Hannes Þór Halldórsson é cineasta nas horas vagas, estreando-se nas longas-metragens da melhor maneira, com um filme em competição ao Leopardo de Ouro no Festival de Locarno.

Um filme que acaba por ser surpreendente na competição de um certame que, pelo menos nas últimas décadas, está mais habituado a filmes com maior autoralidade e tendência para o experimentalismo. Na verdade, “Cop Secret” (Polícia Mauzão, Polícia Bonzão), apesar de quebrar alguns tabus nos relacionamentos amorosos e na noção de masculino, é o que chamamos um filme à la Hollywood, profundamente inspirado no cinema de ação vibrante mainstream que invadiu as salas e videoclubes mundiais nos anos 90. 

Referências explícitas a clássicos de ação como “Die Hard III” e até “Face-Of” são observáveis neste projeto, o qual segue a forma como dois policias “durões e lendários” do país, mesmo com uma rivalidade entre ambos, juntam-se para travar um inimigo comum. “Para ser honesto, não sou um homem de filmes muito artísticos. Quer dizer, vejo-os e gosto de alguns deles, mas a minha escolha de filmes ao longo dos anos sempre foi profundamente mainstream, o que chamamos filmes de Hollywood. Não tenho qualquer vergonha em dizer isso e é daí, desse mundo, que muitos cineastas despontaram”, explicou-nos o realizador em Locarno, onde teve até direito a uma festa em seu torno.

Com um orçamento na casa dos 0,03% do que custou, por exemplo, o último filme da saga “Velocidade Furiosa”, “Cop Secret” é de facto um filme estilizado de um jeito com situações de crime, tiroteios e perseguições que dificilmente veríamos na Islândia na vida real, até porque, como nos explicou Hannes, a polícia islandesa não anda com aquelas armas e não existem jurisdições onde um polícia pode atuar ou não. “Não tinha qualquer expectativa que o filme fosse mostrado fora da Islândia, apenas queríamos fazer um filme divertido. Sei perfeitamente que os clichés dos filmes de ação que surgem em cena não são originais, mas o filme é em si original”, disse-nos o realizador, acrescentando as dificuldades que encontrou em equilibrar a sua carreira de futebolista e de cineasta: “Foi muito difícil jogar nas duas vertentes. O cinema é o meu segundo emprego, o primeiro é o futebol. Sou um profissional e tenho de estar em todos os treinos. É um regime muito inflexível. Treinamos várias horas, além dos jogos, por isso foi muito complicado conjugar as coisas. E é o meu primeiro filme porque não é possível fazer grandes projetos em paralelo ao futebol. As primeiras vezes, filmei anúncios e videoclipes e dava tempo depois dos treinos de editar. Mas filmar durante muitos dias seguidos, entre 12 e 14 horas, é extremamente complicado. Tive de fazer as filmagens depois da época desportiva acabar. Filmamos 20 dias nessa altura, mais cinco dias de exteriores durante a temporada, em que ocupava as folgas. Folgava às quartas, pedia um dia de folga extra. Treinava às segundas, mas quando saía ia filmar. Às terças e quartas filmava os dias inteiros e à quinta voltava aos treinos. Foi muito stressante, mas claro, o treinador não tinha nada a ver com esta segunda vida (o cinema), nem demonstrava compreensão para com ela, como é natural”.

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