No topo de um cinema de pretensões sociais e, consequentemente, políticas, existe um tom fortemente humanista e uma história de amor que desperta contra todas as expectativas nesta primeira incursão do belga Zeno Graton nas longas-metragens, “Le Paradis”, presente no Festival de Berlim na mostra Generation.

Focando as atenções num centro de detenção em Bruxelas, que em muito faz lembrar a casa de acolhimento para jovens (neste caso, do sexo feminino) do filme suíço “La Mif”, Graton retrata o quotidiano monótono da vida de Joe, um jovem institucionalizado após problemas com a justiça e que agora vagueia por entre companheiros, rituais e trabalhos projetados para construir e cimentar a sua personalidade no lado do bem da lei.

É com a sua fuga espontânea do local, apenas com intuito de “ver o mar”, que o filme começa, continuando depois da sua captura e reencaminhamento para o local a análise à sua condição e à dos outros jovens presentes, bem longe do Paraíso que o título evoca, mas denominado como uma segunda oportunidade numa sociedade hostil.

O coração de Joe começa, contudo, a bater mais forte quando chega ao mesmo centro Willian, um rapaz detido por esfaqueamento, que vai despertar nele novas sensações, com a paixão, o autoconhecimento e o desejo a comandarem agora o dia a dia. Longe dos olhares alheios, os dois iniciam um relacionamento de proximidade num ambiente pouco propício a isso, onde a masculinidade é medida pela testosterona e a homossexualidade não é vista com bom olhos. Por isso mesmo, em determinado momento do filme, à  hipótese de liberdade e de sair do centro de Joe se opõe o desejo de manter a sua ligação a William. Após uma explosão de agressividade, uma das tutoras de Joe diz-lhe que aquele não é o lugar para isso, sublinhando o caráter adverso do espaço para qualquer tipo de relações que os irão enfraquecer perante o grupo e sociedade.

Khalil Gharbia e Julien de Saint Jean, nos papéis dos dois amantes camuflados num teatro de guerra urbano de reabilitação social, são exemplares no vestir a pele de Joe e William. Bem dirigidos por  Zeno Graton, que nunca abandona uma abordagem realista pingada com explosões simbólicas (veja-se a cena do fogo de artifício), os dois transportam para o ecrã atos de fisicalidade com tanta carnalidade como violência, e que servem como a sua resposta às contradições internas que reprimem interiormente a bem de uma “saúde social”.

 Por todas estas razões, “Le Paradis” merece uma olhadela, não apenas por ser um retrato fiel de um espaço que, por sua vez, espelha a própria sociedade, mas porque através da linguagem do cinema tem sempre uma postura crítica sem ser panfletária.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
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