Existe um ponto do candomblé (religião afro-brasileira derivada de cultos tradicionais africanos), habitualmente levado por entidades “da rua”, ou seja, aquelas que andam pelas encruzilhadas do mundo, onde se canta: “Amor é uma palavra para quem sabe dar valor”. Essa rima não se faz notar no microscosmos frio, chuvoso, silencioso, porém, repleto de mato verde, onde vive Irene, a personagem encarnada por uma Maeve Jinkings de olhar aquilino em Carvão.

Aplaudido no TIFF, no Canadá, e prometido para a Première Brasil do Festival do Rio, a longa-metragem da premiada Carolina Markowicz (sensação das curtas-metragens de Cannes, em 2018, com O Órfão) despertou curiosidade e causou nervosismo na sua passagem pelos Horizontes Latinos de San Sebastián, em competição. O desempenho da sua estrela é digno de prémio onde quer que seja, pela maneira como traduz os sentimentos de transbordamento de uma mulher que – como canta a música da pombajira do sincretismo africano – não recebeu o valor, por nada, lutando para se impor pela resiliência.

Num dado momento de Carvão, Iene modifica o penteado, passa tinta, “gourmetiza” o cabelo e compra lingerie comestível com sabores exóticos de iguarias das Festas Juninas. Ela quer despertar a atenção das forças masculinas nada potentes que a cercam. A exceção de potência, à qual San Sebastián reagiu com vastas gargalhadas durante a projeção no Kursaal, é o seu filho, o pequeno Jean, vivido por Jean Costa. Atrevido com a mãe, avesso a tarefas como lavar a louça, e dado a mentir sobre as lições escolares, Jean ainda vê Irene como Graça sobre a Terra. Não se pode dizer o mesmo de Jairo, o seu marido. A presença de um ator do quilate de Rômulo Braga (“Elon Não Acredita Na Morte”) é fundamental para espatifar os conceitos da masculinidade de um Brasil rural expressos em Jairo. Trata-se de um companheiro de cama nada ativo, despreocupado com as obrigações ligadas a um casamento e à paternidade. Dono de uma carvoaria, ele se desenha como o estandarte da inércia numa família que luta a duras penas contra a pobreza.

Irene tem uma jornada dinâmica na sua casa no campo, com a missão dupla de cuidar da produção de carvão e fiscalizar os gastos tolos de Jairo. E ainda precisa cozinhar profissionalmente, fazendo um frango regado com molho pardo famoso. Mas carinho… isso ela não tem. “Você não trata ninguém nessa casa abe”, reclama ela, numa discussão de relação naquele mundinho arborizado, captado pela fotografia de Pepe Mendes num tom plúmbeo, de quadros nevrálgicos. É nesse ambiente de sol reticente que Irene abre as suas portas para acolher um estrangeiro, vivido pelo argentino César Bordón (o político do primeiro segmento de “Relatos Selvagens“, que se passa num restaurante). Ele é um criminoso (aparentemente), cujo delito é sempre abordado na diagonal, sem detalhes. Sabe-se que tem dinheiro e que é viciado em cocaína.  

Não é um acolhimento generoso o que Irene lhe oferece. É um acordo comercial. Irene aceita hospedar o estrangeiro para ganhar um soldo extra, que Jairo torra ao satisfazer um capricho. Um capricho que revela a sua orientação e o seu desapego por alguém que um dia pareceu querer muito o seu beijo. Irene vai buscar afago no hóspede. É o que parece. Mas a fúria essencial dele e um certo segredo encarceram a conexão com o mundo da sua hospedeira. Um mundo assombrado pela convalescênça do pai de Irene, cujo desparecimento desarranja um ambiente já vetorizado pela desarmonia. A falta de equilíbrio, ali, espelha a toxidade masculina que cercam a figura aguerrida vivida por Maeve. Uma figura que reage, ainda que fora das convenções.

A confiança dela é um diamante sacrificado no garimpo da vida quotidiana. As suas reações e vivências geram um filme tenso, que se impõe ainda pela direção de arte rica nos detalhes de Marines Mencio e Natalia Krieger.

Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
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