Existe um clichê no cinema documental, que se trespassou para a crítica cinematográfica, de associar as famosas “cabeças falantes” a registos jornalísticos e televisivos, perdendo os documentários em si automaticamente a qualidade cinematográfica quando isso aparece em cena. A verdade é que ver Quentin Tarantino falar de algo que adora ganha permanentemente a apenas ouvi-lo enquanto passam outras imagens associadas ao tema (o que também acontece). A fisicalidade do realizador, o jeito com que fala com cada pedaço do seu corpo (algo que costumamos associar aos italianos e os famosos gestos com as mãos) é uma das grandes mais valias deste ”Sergio Leone: The Italian Who Invented America”, um documentário que bem podemos definir como uma verdadeira masterclass sobre o Rei dos Spaghetti-Western, que tanto influenciaram o cinema do norte-americano que realizou “Django Unchained” e “Once Upon a Time…in Hollywood“.

E Tarantino é um repetente em Veneza no que toca a dar a sua voz, visão (e corpo) sobre autores de cinema italianos. É que se no ano passado surgiu em destaque em “Django & Django”, documentário exibido no festival em torno de Sergio Corbucci, este ano repete a dose para falar do outro Sergio, o Leone, que tanto influenciou o seu cinema.

Só que desta vez, Tarantino é acompanhado nos depoimentos por uma verdadeira legião de nomes inquestionáveis do cinema global, onde se incluem nomes como Martin Scorsese, Steven Spielberg, Robert De Niro e Clint Eastwood, além de muitos outros como Dario Argento, Jacques Audiard, Giuseppe Tornatore, Darren Aronofsky, Damien Chazelle, Frank Miller, Ennio Morricone e até Jennifer Connelly, ela que com apenas 12 anos deu o seu primeiro beijo no set de filmagens de “Once Upon a Time in America”.

Frank Miller explica como Leone influenciou “Sin City

Fazendo um percurso dos primórdios ao final da carreira de Leone, com paragens obrigatórias na Trilogia del dollaro – “A Fistful of Dollars” ( 1964 ), “For a Few Dollars More” ( 1965 ) e “The Good , The Bad The Ugly” ( 1966 ) -, em Cannes e no derradeiro projeto da sua vida, “Once Upon a tIme in America”, que demorou mais de uma década a ganhar vida, e mais uns anos embrulhado num problema com a sua duração, ”Sergio Leone: The Italian Who Invented America” usa muitas vezes as palavras do próprio autor para falar das suas produções, paixões e dificuldades, visitando igualmente gente muito próxima aos filmes (atores, produtores ou familiares), os quais nos dão insights valorosos para a posteridade sobre um nome que marcou claramente a transição do cinema de Hollywood clássico para a Nova Hollywood.

Jennifer Connelly em “Once Upon a Time in America”.

É que se na América o género do faroeste estava moribundo, dizia a Variety, em Itália (ou Almeria/Espanha), o Spaghetti Western mostrava um incrível vigor, impactando até hoje um grande número de autores contemporâneos.

Dando ainda detalhes sobre os seus tempos de assistente de realização (34 filmes), além dos seus trabalhos já solo, como “O Colosso de Rodes” (1961), “Once Upon a Time in The West” e “Duck You Sucker”, ”Sergio Leone: The Italian Who Invented America” é um objeto absolutamente indispensável para qualquer fã de cinema, e revela-se tão rico e instrutivo como emocionante.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
era-uma-vez-sergio-leoneUm objeto absolutamente imperdível para qualquer fã de cinema, tão rico e instrutivo como emocionante