O Preto e Branco é mais verdadeiro que a cor”, dizia Sérgio Tréfaut ao C7nema aquando do lançamento do seu “Raiva”, um objeto que estranhamente (ou não) nos vem à memória quando vislumbramos este “Ti mangio il cuore”, não apenas por ser um filme de época, por seguir códigos do western, ou pela escolha estética monocromática, mas por também apresentar duas facções em guerra. Porém, se no filme português a luta de classes movia o enredo e o livro que lhe deu origem (Seara de Vento), com as preocupações humanistas e sociais do neorrealismo, no terceiro filme de Pippo Mezzapesa são duas famílias em disputa de poder que fazem explodir toda uma onda de violência e crueldade, onde cada frame parece querer corresponder a uma fotografia instantânea como algumas que Letizia Battaglia documentou sobre os crimes da máfia siciliana nos anos 70 e 80.

Tão pop como a sua estrela principal, a cantora Elodie no seu primeiro papel de relevo no cinema, em “Ti mangio il cuore” viajamos à  área de Gargano, no Norte da Apúlia (Itália), local que serve de palco à guerra aberta e sem travão entre os Malatesta e os Camporeale, que tal como os Montéquio e Capuleto que Shakespeare mencionou em “Romeu e Julieta” veem a sua rivalidade se acentuar quando Andrea Malatesta ( Francesco Patanè) e Marilena (Elodie), esposa do chefe Camporeale, se apaixonam.

Adaptação livre do livro de Carlo Bonini e Giuliano Foschini, que também se envolveram na escrita do guião com Antonello W. Gaeta, Davide Severino e o próprio realizador, em particular na história de Rosa Lidia Di Fiore, que se tornou a primeira informadora sobre esta máfia, “Ti mangio il cuore” dedica-se exclusivamente à guerra visceral entre facções opostas, esquecendo por completo as forças policiais, os magistrados e tudo mais, dando assim a ideia de uma região que tal como o velho oeste americano vive de leis  próprias ditadas pela bandidagem, onde os tiros & sangue são a moeda corrente num diálogo cego e vingativo. 

Sempre visceral e brutal no retrato da violência e da psique tóxica por trás das duas facções, embora com um sentido estético super-aprumado, Pippo Mezzapesa mostra uma verdadeira História de legados manchados pela violência, a qual não surge apenas nos nossos olhos através dos atos criminosos, todos eles bárbaros e simbólicos (o destroçar o rosto), mas também através das palavras usadas e dos cenários escolhidos, onde qualquer espaço – como um curral com porcos – se transforma num cemitério improvisado à espera dos corpos. E uns atrás dos outros eles aparecem.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
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