Um dos  santos mais conhecidos e estimados de Itália, o Padre Pio, é apresentado por Abel Ferrara neste seu mais recente projeto como um figura permanente do seu cinema: o “herói” ambíguo carregado de demónios pessoais, que tanto luta permanentemente contra as suas dúvidas sobre fé e é assombrado por remorsos, como responde com toda a brutidão e convicção a qualquer um que duvide dos desígnios e poder de Deus.

Curiosamente, o seu novo filme, é muito mais sobre uma época e um evento específico (o Massacre de San Giovanni Rotondo em 1920) que sobre o místico monge capuchinho mais conhecido por ter exibido os “estigmas” de Cristo, e que, diz-se, chegava a travar aviões dos aliados na 2ª Guerra Mundial, subindo apenas aos montes. Esses pormenores mais sumarentos da vida de Pio – para não os chamar de fait divers construtores de um imaginário religioso – não se encontram neste filme em competição nas Jornadas de Autor do Festival de Veneza, assistindo o espectador fundamentalmente às lutas internas do homem durante a sua juventude, tudo a partir de uma investigação conduzida por Ferrara a diários, escritos e documentação produzida pelos súbditos.

Também de forma curiosa, “Padre Pio” é certamente o filme mais acessível, em termos narrativos, de Ferrara em anos, funcionando a maioria das vezes como um docudrama, uma espécie de reconstituição peculiar que começa com a chegada dos sobreviventes da I Guerra Mundial a uma comuna ainda inserida num sistema feudal de domínio latifundiário, prossegue com a agitação social fruto do crescimento das ideias socialistas, posteriormente expresso na conquista democrática do poder local, e da repressão imediata (com o amém da Igreja) das forças do poder a esse movimento vermelho, numa clara antecipação às ideias fascistas que se iriam institucionalizar com a tomada do poder por Mussolini em 1922.  

O próprio Ferrara, que afirma ter começado a pensar neste filme há cinco anos (pelo caminho, ele fez um documentário sobre o Padre Pio), mostra a relevância do seu filme nos tempos atuais, acreditando na capacidade do poder de sugestão do espectador fazer uma ligação do que assiste a eventos recentes, como a invasão do Capitólio dos EUA por fanáticos de um Trump derrotado (e com mau perder) e da recente invasão da Ucrânia, a quem o cineasta dedica o seu filme, juntamente com todas as vítimas do massacre em San Giovanni Rotondo.

De resto, e felizmente nunca seguindo a rota do biopic convencional, as marcas estéticas do realizador permanecem intactas, não faltando diversas imagens “pesadélicas”, por entre diálogos intensos apinhados de palavras, como aquele que Shia Labeouf tem com uma personagem interpretada por Asia Argento, e que culmina com um valente “Shut the Fuck Up! Say Christ is Lord!”, para riso e deleite do espectador.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
padre-pio-abel-ferrara-relembra-o-massacre-de-san-giovanni-rotondoNunca seguindo a rota do biopic convencional, as marcas estéticas do realizador permanecem intactas, não faltando diversas imagens “pesadélicas”, por entre diálogos intensos apinhados de palavras