Já com algumas curtas-metragens do currículo (“Beauty Boysin”, 2019; “Premier Amour” e “Où vont les sonsin”, em 2020), o jovem realizador francês Florent Gouëlou estreou-se nas longas-metragens com “Trois nuits par semaine”, um objeto cinematográfico que entra no universo Drag Queen parisiense com toda a genica de um crowd-pleaser inclusivo capaz de ser chamariz como filme de abertura da Semana da Crítica do Festival de Veneza.

Este mundo drag queen não é de todo estranho a Gouëlou, não só porque já o tinha investigado e abordado em “Un homme mon fils” (curta que assinou em 2017 e pelo qual ganhou o prémio de interpretação em Clermont-Ferrand), mas porque ele mesmo assume essa arte transformista como Javel Habibi à noite, uma drag queen que se apresenta mensalmente no palco Flèche d’Or em Paris.

Todos os ingredientes de “Trois nuits par semaine” são derivativos dos famosos contos coming-of-age com toques de romance, comédia e drama que açucaram os ecrãs globais em particular a partir dos anos 80, mas ao colocar no centro das atenções um homem envolvido numa relação heterossexual, Baptiste, que se enamora por uma drag queen, Cookie Kunty, que conhece na noite enquanto faz trabalhos fotográficos, o realizador dá uma dimensão política de inclusão na mais que tradicional história de amor onde não falta o facto de um dos elementos ser caracterizado pela insolência, uma forma de insultar as normas, que faz muito do seu charme. e do filme.

Por isso mesmo, os moldes narrativos tradicionais estão todos lá na que outrora era a história típica que Hollywood vendia a rodos: a do boy meets girl, apaixonam-se, namoram, separam-se e voltam a se reencontrar. Porém, agora é boy meets drag queen, apaixonam-se, relacionam-se, etc e tal.

Visualmente solarengo como os espetáculos que frequentemente vemos em cena d@s Drag Queens, muito por responsabilidade do cuidado na direcção artística, guarda-roupa e fotografia, “Trois nuits par semaine” tem alguns subenredos que acrescentam um peso emocional à sua dinâmica essencialmente esperançosa, como o HIV, as equipas de rua que fazem o seu rastreio, e a violência homofóbica que muita vez afeta a comunidade gay. Nenhum destes temas é tratado além da flor da pele, e embora implicitamente se faça uma declaração política, “Trois nuits par semaine” prima pela pequena (grande) ambição de ser principalmente um romance no mundo do show business, onde amor e carreira podem ter de se confrontar a determinado ponto e obrigar a opções dolorosas.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
trois-nuits-par-semaine-romance-no-universo-drag-queen-abriu-semana-da-critica-de-venezaEmbora implicitamente se faça uma declaração política, “Trois nuits par semaine” prima pela pequena (grande) ambição de ser principalmente um romance no mundo do show business