Seguindo a tendência contemporânea de conversão da revolução documental num cinema ficcional de forte comunhão realista, em tudo ligado à política de autor, Roberto De Paolis – realizador do curioso “Cuori Puri”, estreado em Cannes – invade Veneza com uma segunda obra que mais uma vez lança um olhar sobre figuras nas margens da sociedade, usando desta vez como espaço (real e imaginário) um bosque na área de Óstia (subúrbios de Roma), que não diferentemente do de Bolonha (nos limites de Paris) é um verdadeiro bordel a céu aberto.

É aí encontramos a protagonista desta fábula moderna contorcida, Princess (Glory Kevin), uma imigrante ilegal nigeriana que, como uma amazona, caça clientes, percorrendo um bosque pouco encantado, mas com vários tesouros e locais por revelar, numa jornada rotineira onde o objetivo é dinheiro, evitando-se qualquer tipo de construção partilhada de sentimentos. Isto pelo menos até ao dia em que conhece um homem (Lino Musella) com quem vai criar uma ligação um pouco diferente às habitualmente fugazes e comerciais do dia-a-dia.

Docuficção construída a meias entre o cineasta e as jovens nigerianas que conheceu durante a pesquisa, e onde atores seguem o ritmo imposto pelos não-atores, “Princess” é um retrato derivativo dos velhos ensaios neorrealistas agora adaptados à contemporaneidade (realce para a banda-sonora que mistura do techno ao Hip Hop da Nigéria) e à observação humanista da chegada à idade adulta de personagens marginais (imigrantes) em profunda transição. Nesta matéria, De Paolis não era virgem e já o tinha feito – com ferramentas e uma “argamassa” diferente – com a sua longa-metragem inaugural, “Cuori Puri”, onde a promessa de virgindade de uma jovem torna-se numa fonte de conflito quando ela se apaixona por um homem fora da sua comunidade.

Claro que, tendo em conta o foco principal da lente cinematográfica nesta segunda longa-metragem do realizador, a jovem Glory Kevin acaba por ser o motor e a força da natureza que move todo um filme, o qual a todo o custo tenta se afastar da moralização e do miserabilismo, mas não evita cair em alguns lugares comuns. O espectador é assim levado numa verdadeira tour, entre fragilidades e forças de uma mulher, por um não-lugar (este bosque) que se transforma, ao seu jeito muito peculiar, num local de encontro de almas perdidas, animais, presas e predadores, e onde a nossa Princesa diz reinar.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
princess-era-uma-vez-uma-princesaRoberto De Paolis invade Veneza com uma segunda obra que mais uma vez lança um olhar sobre figuras nas margens da sociedade, usando desta vez como espaço (real e imaginário) um bosque na área de Óstia