Se há género que sofre com a desabituação da experiência coletiva de ver um filme em sala e a passagem para a exibição em streaming é a comédia. E quando esta é de horror, de tonalidades “camp” e explosões “splatter”, a ausência do riso, a maioria das vezes contagiante, sente-se de sobremaneira, perdendo-se grande parte do prazer com a experiência solitária de visualização num pequeno ecrã.
“Day Shift”, produção Netflix de contornos fantásticos dentro do género da comédia de ação e horror (espécie de “Blade” misturado com “Bad Boys” ou “RIPD“), é certamente um filme que sofre com isso, mesmo que pelo ecrã os seus atores – Jamie Foxx e Snoop Dogg – esbanjem carisma.
Compreenda-se que tal como a maioria dos filmes feitos por esta plataforma, “Day Shift” é frutífero em lugares comuns e na transição de géneros sem uma grande coerência. Assim, temos uma boa dose de buddy film, uma cobertura de ação à la “John Wick”, q.b. de comédia vampiresca de horror, e até uma formato road trip. A criatividade e a inovação são elementos dispensáveis e o que se quer é pegar e misturar ingredientes de fórmulas de sucesso comprovado, num modo de guião em auto-piloto, que de alguma forma entregue um espéctaculo para tudo e todos.
Foxx interpreta Bud, um caçador de vampiros que precisa juntar 10.000 dólares para evitar que a mãe (Meagan Good) da sua filha Paige (Zion Broadnax) venda sua casa e se mude para a Florida. Após mais um pequeno trabalho que não rendo o esperado, ele decide unir-se novamente ao sindicato de caçadores de vampiros que o afastou há alguns anos. Só assim ele conseguirá o dinheiro, mas pelo caminho terá de lidar com uma vampira que une diferentes clãs e subespécies no Vale de San Fernando.
Se as gargalhadas fossem entregues ao espectador com tanta intensidade como o carisma que se junta em cena (e ainda assim Peter Stormare está desaproveitado e Dave Franco existe apenas para servir de contraponto a Jamie Foxx), “Day Shift” seria memorável, mesmo que não trouxesse especificamente nada de novo em termos técnicos e narrativos. A verdade é que esta moda de ação à “John Wick” está a entrar num tal ponto de saturação que quase se assemelha ao bullet time de “Matrix” que se tornou um chavão de quase todos os filmes de ação após ele (especialmente os de Jet Li).
Em estreia na realização, JJ Perry faz assim mesma transição que Chad Stahelski e David Leitch (diretores de duplos que passaram para a realização) e entrega apenas um objeto competente na arte da imitação na ação, entre a seriedade e a paródia, mas sempre violenta na disposição gráfica.




















