Robert Lorenz tem passado grande parte da sua vida e carreira a produzir e assistir na realização o cinema de Clint Eastwood, notavelmente “Mystic River”, “Gran Torino” e “Sniper Americano”.
Ele realizou mesmo “As Voltas da Vida” e por tal não é de estranhar que muita da construção da personagem interpretada por Liam Neeson neste “Missão Inesperada” (The Marksman) tenha uma ligação direta a muitas daquelas que Eastwood vem interpretando com maior profundidade desde os anos 2000, a do velho veterano militar norte-americano que leva uma vida pacata no seu rancho no Arizona, junto à fronteira com o México, e que é confrontado com uma mãe e um filho que fogem para os EUA de um grupo de criminosos mexicanos.
Mas ao contrário do cinema de Eastwood recente – Neeson talvez esteja aqui a transitar para um ponto “Eastwoodiano” da sua persona cinematográfica, pois afinal das contas tem quase 70 anos e continua a liderar filmes de ação para gente mais nova – “Missão Inesperada” é fundamentalmente binário e clássico na sua abordagem à ação, construindo um íman de valores, honra e promessas no seu herói e enfatizando o bacoco “moral high ground” inerente a qualquer filho da América presa ao “let’s make America great again“.
A pouca subtileza aqui vem do argumento, especialmente na construção dos vilões, que regressam aos tempos de apenas uma dimensão pessoal (são maus e apenas maus), sem qualquer ambiguidade, fundura ou candura, levando-nos mais ao cinema do Eastwood exclusivamente ator dos anos 70 que aos mais apurados dos anos 2000 e 2010 (onde atuou e realizou).
O resultado é assim um tipo de filme démodé, bolorento e tão empoeirado como o deserto do Arizona, onde o sentimentalismo básico e a sobrevivência dos mais fracos depende do famoso “white savior” cheio de valores herdados dos pais fundadores dos EUA. E ele mesmo transmite esses valores a um rapaz, começando por lhe colocar uma arma na mão, como qualquer “bom americano” deve fazer.



















