Leitura emocional de um cenário tipicamente ocidental: o completo desprezo pelo idoso, que a partir de uma certa altura deixa de ter funcionalidade para a máquina capitalista. O que esta necessita é de jovens ambiciosos, quanto mais arrogantes e desprovidos de sentido moral, melhor.
Clint Eastwood, que aqui atua no filme de estreia do seu pupilo Robert Lorenz, assistente de realização em vários dos seus filmes, tem vindo a utilizar a sua arte para lidar ele mesmo com o seu próprio envelhecimento e termina por ser perfeito para o papel. Esta foi a temática fundamental dos seus dois últimos trabalhos como ator: “Million Dollar Baby” e “Gran Torino”. Com este último, principalmente, há uma grande sintonia.
O título original, “Trouble with The Curve” é preciso como introdução aos dramas que afetam as personagens principais: para além de se referir ao jogo de basebal, dentro do qual se passa a ação, funciona como metáfora dos problemas diversos enfrentados pelos protagonistas.
No caso de Gus (Eastwood), ele é um olheiro com a missão de descobrir novos talentos para a sua equipa, mas está a perder a visão (e o emprego). Para além disto, a sua situação cada vez mais precária o leva a ter que encarar de frente algo com o qual nunca conseguiu lidar: a existência da sua filha Mickey (Amy Adams). Esta é, por sua vez, uma advogada ambiciosa e que vive para o trabalho, cujo ódio frio aos anos de abandono por parte do pai também a coloca numa encruzilhada ao ter que enfrentar o passado.
Quase uma parábola sobre a estupidez dos novos e a sabedoria dos velhos, o filme também trata da falta de laços afetivos e das dificuldades de comunicação num mundo cada vez mais desumanizado pelo individualismo e a competição.
“As Voltas da Vida” é um drama comedido, sem excessos sentimentais, com uma boa história, personagens bem delineadas e atuações à altura. Na sua simplicidade narrativa, tem um enredo cativante o suficiente para que, apesar das enormes discussões acerca de basebol, desporto ignorado na Europa, o filme continue interessante. Só peca um tanto por algumas previsibilidades e soluções de telenovela que passa a adotar a partir de uma certa altura.
O Melhor: drama muito bem conseguido, com enredo interessante e atores à altura
O Pior: as soluções de telenovela
| Roni Nunes |

