A desilusão quanto à morte do sonho-americano têm-se multiplicado no cinema norte-americano nos últimos anos, com filmes como “Nomadland” a conquistarem Oscars, “Hillbilly Elegy” a somarem audiências no streaming, e “Dirty Feathers” a deliciar audiências festivaleiras (Berlinale) num registo documental.

Death on the Streets” acompanha também essa falência de um sistema – onde os ricos são cada vez mais ricos, e os pobres mais pobres – através da história de Kurt (Zack Mulligan), um homem fustigado por dívidas e problemas financeiros que entra numa espiral infinita em direção à pobreza, mas que mantém um orgulho e um espírito muito americano contrário à assistência social e de incidência do regime patriarcal, onde se impõe ao homem tomar conta da família.

Nascido no norte da Europa, o realizador e argumentista Johan Carlsen inspirou-se na sua experiência e observação em Atlantic City e no Centro Oeste americano para construir um pequeno filme direto e parcialmente eficaz que funciona como uma flecha espetada no coração dos EUA,  mas infelizmente nunca se sente que explora inteiramente o seu potencial ou aprofunda personagens, mesmo que nele exista uma uma objetiva ciente que está a atuar em profundo terreno político, social e humano, tudo num registo próximo do realismo.

Nessa descida aos infernos, Kurt é construído entre a apatia e casmurrice, recusando sistematicamente ajuda de todos à sua volta, perdendo-se e transformando-se num sem-abrigo que ainda acredita que as coisas vão mudar, mas que efetivamente vê o seu mundo desmoronar por caminhos sem retorno. A personagem entrega-nos toda a sua condição e forma de ser de mão beijada, deixando pouco espaço ao espectador para preencher os espaços ou lidar com o poder da sugestão que nos faça equacionar como se desenvolveu a sua personalidade. Além disso, seria também de esperar um pouco mais das personagens secundárias, com apenas a esposa de Kurt a ser minimamente trabalhada além dele.

Uma nota para a banda-sonora, que nos transporta imediatamente para a geografia do local, e a cinematografia, que entre as paisagens rurais norte-americanas e as cidades artificialmente construídas vai mostrando que a terra prometida a todos os que foram para os EUA transformou-se para muitos dos seus descendentes no alcatrão onde agora dormitam.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
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