Nos 30 anos que se passaram desde Toy Story (1995), a Pixar, no seu matrimónio profissional com a Disney, submeteu o público a uma pós-graduação em Psicanálise, ao emular as teorias das mais variadas ordens da Psicologia, em especial de Donald Woods Winnicott (1896-1971), de modo a discutir toda a sorte de angústia sofrida pela cinefilia ocidental. Os argumentos do estúdio não se guiam por causalidades dramatúrgicas, mas, sim, por conflitos da alma… e da mente. São filmes-divã, nos quais a plateia deita-se em projeções e transferências. A franquia Inside Out (2015 – 2024) é a expressão máxima dessa linhagem psicanalítica, que se perde do eixo – para o bem da liberdade artística – em Elio, um exercício de criação ousado para os parâmetros do estúdio do Rato Mickey. O protótipo de aventura realizado por Madeline Sharafian e Domee Shi, com Adrian Molina também no leme, é ficção científica das mais puras, prestando um lindo tributo ao género na sua articulação com as tramas sobre OVNIs.

A esparrela sentimental costumeira dessa fábrica de filmes para a família ainda está lá, só que expressa com mais inteligência do que de costume. Numa sequência, um clone do protagonista, feito de geleia verde, vira-se para ele, a fim de mimetizar com precisão os seus hábitos, gostos e crises, com uma pergunta: “mantenho a baixa autoestima e o desespero por afeto?”. Os códigos que nos deram fenómenos como Finding Nemo(2003), como a dificuldade de pertencimento e a corrida desenfreada por parentes perdidos, estão lá, preservados, no lugar de sempre, ainda que envelopados por um fraseado mais realista do que o do costume. A direção de arte peca por seguir um traço padrão – já pasteurizado e cansado – da Pixar na concepção anatómica de personagens humanas, mas acerta, e muito, na construção de um universo estelar capaz de namoriscar com toda a linhagem hollywoodiana do filão, a começar por Star Wars.

A referência mais forte, contudo, é o Steven Spielberg de Close Encounters Of The Third Kind(1977), o filme de culto que adotou François Truffaut (1932-1984) como ufólogo. As conexões com esse marco do sci-fi são das mais variadas (e poéticas), expressão não apenas no pouco de naves na Terra como na reflexão sobre a vinda de corpos especiais não identificados ao nosso mundo. O grupo de especialistas em comunicação por rádio que mapeiam o potencial curso de discos voadores pela Terra também dialoga com o antológico estudo do realizador de ET. O Extraterrestre” (1982) sobre o contato entre povos separados por galáxias.

Esse é o tema de “Elio”, além do desamparo de quem foi deixado só… ou quase só… no cosmos. O miúdo do título, interpretado por Yonas Kibreab, perdeu os pais e vive com a tia, a militar Olga (Zoe Saldaña), sem se abrir para os abraços que ela oferece. Olhar para as estrelas é a sua maior satisfação, somada ao sonho de ser abduzido. Às vésperas de tomar uma sova de um colega afeito, ele acaba por concretizar as suas ambições e ser levado para o Infinito… e além. A alusão ao bordão de Buzz Lightyear, “divo” da Pixar, não é fortuita. A bela longa-metragem que narra a sua origem, esquecida pela audiência no seu lançamento, em 2022, também tratava as viagens interestelares para além do épico do desbravamento. Havia ali a travessia existencial da busca por pertença. É o que se passa com Elio ao fazer amizade com o ácaro alienígena Glorgon (Remy Edgerly), um dos indivíduos do Comuniverso.

Esse é nome da organização interplanetária com representantes de galáxias de toda as vias universais. Ao parar lá, num contato imediato equivocado, Elio é erroneamente identificado como o embaixador da Terra e precisa criar novos laços com excêntricas formas de vida extraterrestres. O pai de Glorgon é a mais intolerante delas. A sua intolerância é tanta que ele nem dá bola para o filho.

Começa aí uma conexão pela amizade, numa aliança que traduz a ambição de toda a ovnilogia de um dia estabelecer pontes com o que vem do Céu. A Pixar rascunha um istmo aqui, ainda que ficcional, mas é um istmo que comove, numa estrutura dramática de montagem eletrizante.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
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