A escuridão, rasgada por pequenos focos de luz natural ou artificial de modo portátil, é algo que acompanha permanentemente a primeira longa-metragem do congolês Nelson Makengo, “Rising Up at Night”, estreada na última Berlinale, vencedora do IndieLisboa e que agora concorre ao prémio principal no Festival Laceno D’oro, que decorre em Avellino, Itália, de 1 a 8 de dezembro.
E a palavra luz, ora dita em relação à escassez de eletricidade, ora usada como fonte de esperança na mensagem de Jesus Cristo, andam de mãos dadas num documentário onde violência, superstição e desorientação são paralelas às constantes faltas de eletricidade numa área que, com a invasão das águas do Rio Congo e a escuridão, parece continuamente permanecer num estado de desastre.
Enquanto a rádio e televisão anunciam a construção de uma mega barragem que parece ser a solução para todos os males do país, um conjunto de personagens, como Kudi, tenta mobilizar os moradores do seu bairro a arrecadar dinheiro para um novo cabo de energia. Já no Monte Mangengenge, um Pastor compara a eletricidade à luz de Cristo como o caminho para a vida e salvação, enquanto Davido procura um espaço para ficar depois da sua casa ser inundada.
Expansão da curta-metragem anterior de Makengo, “Nuit debout” (2019), que acompanhava a comunidade enquanto eles se esforçam para recuperar o acesso à luz arrecadando fundos para um novo cabo de energia, “Rising Up at Night” oferece, através de pedaços de diálogos, sermões e lamentos, um retrato de uma cidade marcada pelas desigualdades, mas que mantém a resiliência e esperança contra a constante deceção, usando para isso muitos dos seus mensageiros, sejam sociais, políticos ou religiosos, como ferramentas ao serviço de uma tentativa de mudar as coisas, enquanto se vende uma ideologia ou crença.
E no processo de transformar tudo em filme, onde a ausência real de luz encontra paralelo no domínio metafórico do estado de uma nação, Makengo, num jogo energético entre a realização, fotografia e montagem, onde a sensação de imprevisibilidade e de desorientação proliferam, produz uma reflexão sobre um povo que desafia a escuridão e procura ele, pelos seus próprios meios, a luz que ilumina a sua sobrevivência.



















