Coube a “Emilia Pérez”, o representante oficial da França aos Óscares, abrir o Festival do Rio 2024 numa abarrotada cerimónia inaugural, com a presença da Ministra da Cultura do Brasil, Margareth Menezes, realizada na sala de exibição mais tradicional do povo carioca: o Odeon. Aberta em edições passadas por filmes de Sofia Coppola (“Lost in Translation”), Daniel Filho (“A Dona da História”), Brian De Palma (“Black Dhalia”), Fernando Trueba (em duo com Javier Mariscal, com “Atiraram no Pianista”), Denis Villeneuve (“The Arrival”) e o saudoso Breno Silveira (“Gonzaga, De Pai Para Filho”), a maratona cinéfila do Rio de Janeiro segue até o dia 13 com cerca de 200 títulos, quase 80 deles relativos à nova safra brasileira. Já há quem diga que o filme que mais vai mobilizar a 26ª maratona cinéfila carioca será “O Quarto Ao Lado” (“The Room Next Door”), que rendeu o Leão de Ouro ao espanhol Pedro Almodóvar. Ele abriu evento três vezes: com “Fale Com Ela” (2002), “A Pele Que Habito” (2011) e “Madres Paralelas” (2021). Regressa agora com uma trama falada em inglês na qual a escritora Ingrid (Julianne Moore, monumental) tem que ajudar a amiga jornalista Martha (Tilda Swinton) num processo de eutanásia. Há uma exibição nesta sexta-feira no Odeon; no dia 10, no Estação NET Botafogo; e no dia 12, no Estação NET Gávea 5. Para além desse melodrama sóbrio, o painel de atrações estrangeiras no RJ é gigante. O C7nema separou algumas das produções mais esperadas, já com os nomes dados no mercado brasileiro.

CAMINHO DA VIDA (“Shambhala”), de Min Bahadur Bham (Nepal): Concorrente ao Urso de Ouro da Berlinale, esta aventura metafísica acompanha a jornada territorial e espiritual da jovem Pema (Thinley Lhamo), uma futura mãe com a barriga no ápice da gestação que sai em peregrinação atrás do seu marido desaparecido na companha de um monge apaixonado, mas dividido entre o desejo e a fé.
MEMÓRIAS DE UM CORPO ARDENTE (“Memorias De Un Cuerpo Que Arde”), de Antonella Sudassi Furniss (Costa Rica): Longa-metragem vencedora do Prémio de Júri Popular da mostra Panorama de Berlim. Uma vez que o assunto mais recorrente do festival foi a vida depois dos 60, com a chegada da velhice, nada mais adequado para o cinema hispano-americano renovar a sua força estética do que um painel experimental sobre três mulheres – Ana (68 anos), Patrícia (69) e Mayela (71) – educados numa época repressiva em que a sexualidade era tabu.
PEDAÇO DE MIM (“Mon Inséparable”), de Anne-Sophie Bailey (França): Pepita oriunda de Veneza, no filme seguimos Mona (Laure Calamy), que vive num pequeno apartamento com o filho adulto Joël, uma pessoa com deficiência. Ele está perdidamente apaixonado pela colega de trabalho Océane, que também é PcD, mas Mona desconhece o relacionamento dos dois. Quando Océane engravida, escolhas devem ser feitas e o vínculo simbiótico entre mãe e filho é enfraquecido, perante a dualidade de uma mulher que quer viver seus próprios desejos e não se render apenas ao estatuto de mãe.

BRIZOLA – ANOTAÇÕES PARA UMA HISTÓRIA, de Silvio Tendler (Brasil): Documentarista com status de blockbuster na América Latina, pela bilheteiras milionárias das suas longas-metragens, o cineasta responsável por “Anos JK” narra a trajetória do político do Rio Grande do Sul que desafiou a ditadura militar e fez um governo dedicado a abrir escolas para estimular a formação de crianças de origens menos abastadas.
TESOURO (“Treasure”), de Julia von Heinz (Alemanha/EUA): Eleito “o filme fofo” da última Berlinale, esta comédia dramática põe a atriz e roteirista de “Girls“, Lena Dunham, ao lado de um mito queer da cultura pop: Stephen Fry. Eles vivem filha e pai num road movie que se passa em 1991, data na qual a jornalista Ruth (Lena) leva o pai, o imigrante judeu Edek (Fry, sublime em cena), a um passeio pela sua terra natal. Mas ela vai incluir campos de concentração no pacote, o que leva Edek, a lembrar a dor vivida pelo seu povo nas mãos dos nazis. O tema é bem áspero. O filme, não.
BIRD, de Andrea Arnold (Reino Unido): No ano em que ganhou a Carroça de Ouro da Quinzena de Cineastas de Cannes, a responsável de “Cow” (2021) disputou a Palma dourada com este drama social de tons fabulares sobre uma adolescente, Bailey, que, sem a devida atenção familiar, vai encontrar amparo entre figuras excêntricas. O alemão Franz Rogowski é a tradução plena da estranheza do mundo suburbano de Kent.
MOACYR LUZ, O EMBAIXADOR DESSA CIDADE, de Tarsilla Alves (Brasil): Ao lado de parceiros como Aldir Blanc, Moacyr Luz inventou um Rio de Janeiro em sambas e canções. Na sua sua vida cotidiana, ele criou lugares onde esse Rio inventado se materializa, como o famoso Samba do Trabalhador das segundas-feiras. Com um olhar curioso e delicado, Tarsilla acompanha as andanças do artista durante uma semana, desde uma roda de samba no domingo em São Paulo até um sábado de bloco carnavalesco no Rio.
RAINHAS (“Reinas”), de Klaudia Reynicke-Candeloro (Suíça): O candidato da Suíça ao Oscar foi laureado com o prémio principal da mostra Geração de Berlim. Nele, duas irmãs adolescentes estão prestes a deixar o país para sempre quando, inesperadamente, se reconectam com o pai ausente. Esse relacionamento vai ampliar e, ao mesmo tempo, aliviar a dor da mudança.

TÓXICO (“Akipleša”), de Saulė Bliuvaitė (Lituânia): O vencedor do Leopardo de Ouro de Locarno este ano gravita entre a perplexidade e a sororidade. Abandonada pela mãe, Maria, de 13 anos, é obrigada a viver com a avó numa cidade industrial deprimente. Durante um confronto violento na rua, ela conhece a aspirante a modelo Kristina. Procurando se aproximar dela, Maria inscreve-se numa escola misteriosa que prepara meninas para o mundo da moda. A relação ambígua com Kristina e o ambiente intenso, com ares de culto, empurram Maria para um processo de autodescoberta – e de implosão.
ASSASSINA (“Fonissa”), de Eva Nathena: Eis “O” achado grego deste festival, laureado em múltiplas frentes no Festival de Salónica. A sua trama passa-se em uma ilha remota da Grécia, por volta de 1900, onde Hadoula (Karyofyllia Karabeti) vive presa na rejeição da própria mãe enquanto luta para sobreviver aos ditames de uma sociedade patriarcal. O enredo é baseado no clássico “The Murderess”, de Alexandros Papadiamantis.

