Já com quatro curtas-metragens no currículo – Life Is Beautiful and Neverending (2016), Yana (2017), The Contest (2019) e Limousine (2021) –, a lituana Saulė Bliuvaitė encontrou parte da inspiração para o seu Akiplėša (Tóxico) no documentário de 2011, Girl Model, de David Redmon e Ashley Sabin. Nele, retratava-se a forma como meninas adolescentes eram “pescadas” na Rússia, com recrutadores da Europa Ocidental a viajar para lugares esquecidos por Deus, prometendo mundos e fundos a jovens aspirantes ao universo da moda.
Vendendo ambições concretizáveis, sonhos “impossíveis” ou meros esquemas fraudulentos para benefício próprio, essas escolas de moda sempre povoaram o imaginário adolescente, fosse na Rússia, na Lituânia ou até mesmo em Portugal. A cineasta, que afirmou em Locarno ter ouvido, na adolescência, histórias sobre essas “escolas” — e até assistido à visita de scouts ao seu estabelecimento de ensino, à caça de talentos —, parte dessa base para apresentar um coming-of-age centrado em duas amigas cercadas pela desolação industrial do seu povoado e por múltiplas desestruturações familiares e sociais.
Por um lado, Marija (Vesta Matulytė), de apenas 13 anos, coxeia e é vítima de paródias cruéis constantes por parte dos colegas. Entregue a si mesma e contando apenas com a avó como elemento verdadeiramente protetor, envolve-se numa cena de pancadaria infantil com Kristina (Ieva Rupeikaitė), devido a um eventual roubo nos balneários da escola. A partir daí, essa jovem ansiosa e com baixa autoestima inicia uma amizade com Kristina, também ela profundamente condicionada pelo ambiente e pelas pessoas que a cercam. “Inscritas” na escola de modelos e cada vez mais pressionadas a arranjar dinheiro para cumprir o sonho vendido pela empresa — que incluía supostas viagens ao Japão —, as duas passam a vaguear pelo espaço e pelas relações sociais, obcecadas em cumprir um objetivo que lhes permita alargar o mundo. De certa forma, e tal como em Mond, também exibido e premiado em Locarno, regressamos ao “encurralamento” de um grupo de mulheres, agora numa paisagem bem diferente da Jordânia apresentada por Kurdwin Ayub.
Com a preciosa ajuda do diretor de fotografia Vytautas Katkus — tanto na cartografia dos espaços “ultrapassados” quanto nas viagens infernais internas aos dilemas da juventude —, Saulė Bliuvaitė, com a mesma sinceridade, ternura e também crueldade frequentes no cinema de Rúnar Rúnarsson, entrega ao espectador uma impressionante primeira obra. Seja na escolha de ângulos de filmagem diferenciados, seja na constante utilização de uma paleta rígida e desprovida de vida, a realizadora e argumentista desenvolve e estuda convenientemente as suas personagens: a sós, em dupla ou no âmbito das suas relações.
Abalroamentos internos e afetos distorcidos são expostos com rigor e maturidade por parte da realizadora, enquanto elementos típicos da jovialidade de cineastas na sua primeira obra acrescentam uma energia e um furor que nos colam à história e às personagens desde os primeiros minutos.




















