“Celacanto provoca maremoto” é uma frase extraída do tokusatsu (seriado live-action japonês) National Kid (1960) e reinventada pela contracultura brasileira num grafite do jornalista Carlos Alberto Teixeira (o CAT), dos anos 1970. Batizou ainda um amálgama de óleo e gesso da artista plástica Adriana Varejão, de 2008, que simboliza, no seio do mundo pop, um alerta: o perigo vem das águas, ou seja, do fluído, do que não é sólido. A solidez, segundo Marx, desmancha-se no ar, a fluidez se regenera e resiste. Na série nipónica, um monstro marinho ameaçava Tóquio. Na ironia de CAT, o risco era o conservadorismo do Brasil de farda, em plena ditadura. No gesto de Varejão, notam-se forças ocultas sobre a placidez das brumas. Pois não é que essas três vertentes se trançam na arena litoral onde se passa o fulgurante Barba Ensopada de Sangue. É um drama com tons de thriller de Aly Muritiba que mais se parece um filme romeno (sobretudo Pororoca, de Constantin Popescu) do que com a linha mais corrente da dramaturgia brasileira em sala.

Na Primavera Romena, deflagrada a partir de The Death of Mr. Lazarescu (2005), a inadimplência do estado desampara o povo e abre brechas – numa narrativa sem estilização, de realismo seco – para situações de selvageria que parecem da ordem do inusitado, até do fantástico, mas são fincadas em ações (e reações) cruas do cotidiano. Títulos mais recentes, como Three Kilometres to the End of the World(vencedor da Queer Palm de 2024), até se abrem mais para filtros de luz na fotografia, porém, permanecem fixos a uma ideia de crueza na representação de um inferno que não é mítico e não se escreve com letra maiúscula. Trata-se do inferno do descaso com o próximo. A trama de Muritiba, ambientada na região praiana de Armação, em Santa Catarina, segue tal registo – com secura, apesar da (leveza da) banda-sonora de Beto Vilares e Érico Theobaldo, que vem e vai. Numa paisagem invadida pelo ruído do vento, a música deles ecoa como ventania (ora brisa) e se encaixa no timbre cerco num clima de explosão anunciada.

O protagonista, Gabriel, nasceu nas páginas do romance homónimo de Daniel Galera (de O Deus das Avencas), que foi saudado pela crítica como um acontecimento literário da prosa em língua portuguesa em 2012, em parte pela sua elegância vocabular, em parte pela forma com que alinha mistérios e reflexões existencialistas. A sua transposição para o cinema foi feita por Jessica Candal e por Mutiba, um cineasta que se destacou no documentário (A Gente) antes de se lançar por uma rota ultrarromântica na ficção, com Para Minha Amada Morta (2015). É da sua verve autoral seguir personagens que se deslocam (das ditas normatizações do mundo) em nome de um querer desmedido, sobretudo por corpos ou almas ausentes. São deslocamentos movidos seja por vingança; por pancadas da adolescência (caso do seminal Ferrugem); pela devoção a um eu lírico (como visto em Jesus Kid”; ou por uma idealização passional, assunto de Deserto Particular, que levou o realizador ao Festival de Veneza, em 2021. Muitos desses vértices lapidam a geometria afetiva de Gabriel, instrutor de natação encarnado por Gabriel Leone (de Ferrari) como um samurai contemporâneo; taciturno, impávido e marcado por um código de honra particular. É incapaz de perdoar o seu irmão por delito de outrora, mas daria a sua vida por ele. Engole erros, mas não os perdoa. A maneira como o ator decanta as tensões internas dessa figura alquebrada é notável – como a das melhores personagens dos dramas da Roménia, vide Ana, Mon Amour(2017).  

De início, vemos Gabriel ao mar, a nadar entre baleias, animais que vão e voltam nas cenas (e nas conversas) de Barba Ensopada de Sangue, em referência à atividade pesqueira (hoje proibida) de Armação, que sustentou parte da sua população até os anos 1970. Aparece uma ossada na caixa d’água da casa onde ele vai morar, ao se mudar do Rio Grande do Sul para a praia catarinense. Essa aparição parece evocar um estratagema sobrenatural, mas logo se descobre ser um esqueleto de um mamífero aquático gigante. É o primeiro indício de perigo na trama inspirada por Galera. Lembra-se de caras Herman Melville (1819-1891), o romancista mais associado ao universo baleeiro no Ocidente, graças a “Moby Dick” (1851), no qual se lê: “Todos os homens vivem envolvidos por cabos de arpão; todos nasceram com a corda no pescoço; mas é apenas quando são apanhados na súbita e traiçoeira reviravolta da morte que os mortais percebem os silenciosos, sutis e sempre presentes perigos da vida”. É o que ocorre com Gabriel, num dispositivo comum à fauna de tipos filmados por Muritiba.  

Após a morte do pai, Gabriel parte para Armação em busca das suas origens, no caso, uma propriedade que pertencia a seu avô (há muito desaparecido e dado como morto). O tal sujeito é odiado por muitos por ali. Parece haver um repúdio a ele naquela cidadezinha descrita como um Éden, embora fotografada por Inti Briones sem a tónica paradisíaca, de cores brandas (outonais). O colorido é abafado como parece ser o modo de se viver ali, a traduzir o espírito de uma gente que vive à deriva numa aparente beleza. O avô de Gabriel, Seu Gaudério, é o tal celacanto supracitado, que torna revolto um mar de verdades escondidas. À sombra de um farol encoberto de névoa, os seus feitos, do passado, parecem ter confinado Armação à desgraça. A chegada do nadador vivido por Leone desperta esse mal. Portador de uma condição neurológica chamada prosopagnosia, que afeta a sua capacidade de reconhecer e lembrar de rostos familiares, Gabriel não guarda lembranças aparentes, o que dá mais periculosidade à sua jornada, uma vez que o perigo pode morar ao lado. O encontro com uma jovem guia de turismo local, Jasmin (Thainá Duarte, numa delicada composição), traz segurança para sua cruzada de ronin, dedicada a preservar o legado do ancestral, para remontar os resquícios do avô perdido e aplacar a sua solidão, o que será arriscado. A montagem de Karen Akerman (coroada com o troféu Kikito no Festival de Gramado) cozinha o suspense que ronda o protagonista de Barba…em alta fervura, até entornar o caldo no trecho final, que é sufocante.

Nesse mar de conflitos que lembra Straw Dogs, de Sam Peckinpah (1925-1984), com direito a pescadores brucutus (Ivo Müller brilha ao compor um deles), a longa-metragem de Mutiba faz uma cartografia dos vazios sentimentais e mesmo geopolíticos, mapeando um território abandonado à sorte das lendas e mágoas. A travessia de Gabriel evoca, em certa medida, a excursão especial (e amorosa) de Brad Pitt (em busca da figura paterna) em Ad Astra (2019), que teve o mesmo produtor, Rodrigo Teixeira.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
barba-ensopada-de-sangueNesse mar de conflitos que lembra “Straw Dogs”, de Sam Peckinpah (1925-1984), a longa-metragem de Mutiba faz uma cartografia dos vazios sentimentais e mesmo geopolíticos, mapeando um território abandonado à sorte das lendas e mágoas.