No lumiar da sua Night of the Living Dead(1968) nas salas de cinema, George A. Romero (1940-2017) convencionou o naturalismo como o código sociológico dos filmes de zombies e fez deles uma alegoria para o consumismo desenfreado imposto pelo capitalismo como um signo do bem-estar. A sua cartilha foi copiada à exaustão em todo o mundo, nos cinemas, no streaming e na TV, com guloseimas marotas como a minissérie brasileira Reality Z (2020), a série global The Walking Dead(2010-2022) e o díptico sul-coreano Train to Busan(2016-2020), de Yeon Sang-Ho. Pouco se viu de originalidade dramatúrgica no filão, que se protegeu da extinção à força de colaborações autorais como as de Marc Foster (World War Z) e Zack Snyder (no remake de Dawn of the Dead, lançado em 2004). Na linha de autor, uma voz nada articulada com módulos de género, sobretudo o terror, deu à linhagem consagrada por Romero aquele que talvez seja seu filme mais original em cerca de cinco décadas, em parte por aplicar os esquemas modais desse universo temático a hipóteses científicas que dispensam o sobrenatural para falar de evolução: o inglês Danny Boyle. O orçamento de US$ 8 milhões de que dispôs para filmar “28 Days Later(em PT, é 28 Dias Depois/ no BR, Extermínio), em 2002, foi o máximo que ele conseguiu depois da sua frustrada experiência com Leonardo DiCaprio em The Beach” (“A Praia”), em 2000. Apesar de concorrer ao Urso de Ouro com essa produção, que custou US$ 50 milhões e arrecadou US$ 144 milhões, o realizador recebeu farpas de múltiplos lados, de instituições ecológicas, do governo tailandês e de parte da crítica.

Saraivadas diversas deixaram-no fragilizado, mas ele seguiu apoiado no carinho do escritor Alex Garland, autor do livro que inspirou essa narrativa praiana e hoje é cineasta. Veio dele a ideia de filmar mortos-vivos de modo pessoal. É ele quem, agora, em 2025, assina o guião de 28 Years Later, que afina (e refina) uma parceria criativa e assegura ao circuito comercial uma iguaria pop sem concessões, sangrenta e reflexiva.  

A experiência de jogar Resident Evil, no fim dos anos 1990, motivou Garland a apostar no template de zombies, só que por um prisma menos fantástico. Romero calçou a sua filmografia na premissa: “E se o Inferno ficou tão cheio que os defuntos agora regressam à Terra”. Garland deixou o lado infernal de lado. Boyle, craque em enredos naturalistas, vide Slumdog Millionaire, que lhe valeu um Oscar de melhor realização, em 2009, e arrecadou US$ 378,4 milhões, gostou de ler um argumento sem elementos místicos. Não existem maldições que tiram cadáveres das covas e, sim, hidrofobia, raiva.


Lá em 2002, 28 Days Later falava de um grupo de ativistas dos direitos dos animais que invade um laboratório e liberta macacos das jaulas para resgatá-los, apesar dos avisos de um cientista de que os símios estão contaminados. Nessa exfiltração, um vírus que os primatas continham espalha-se rapidamente pela Grã-Bretanha e infecta várias pessoas. Quem se infecta desenvolve uma fome descomunal por carne humana e contamina quem é mordido. Jim (Cillian Murphy), que entrou em coma após um acidente de bicicleta pouco antes de a doença ser libertada, sai do estado de apatia e descobre que Londres está deserta. Ele percebe que não está sozinho, pois na cidade há pessoas doentes… e famintas. Corre perigo.
A faturação estimada em US$ 84,6 milhões e o status de culto fizeram da longa-metragem um marco e catapultaram Boyle, com a sua estética nevrálgica, de volta à respeitabilidade. O obturador do diretor de fotografia (e génio da luz) Anthony Dod Mantle tem responsabilidade plena nesse acerto. Garland estreou-se na realização com Ex Machina, em 2014, e emplacou um dos melhores guiões de 2024: Guerra Civil, com Kirsten Dunst e Wagner Moura.

Dod Mantle, Garland e Boyle voltam a unir forças na sequência tardia de 28 Days Later, que se chama 28 Anos Depois em terras lusitanas e Extermínio: A Evolução no Brasil. Cillian é agora também produtor. Há uma outra continuação, 28 Weeks Later, de 2007, que foi realizada por Juan Carlos Fresnadillo, sem nada dos três criadores supracitados e sem a estrela de “Oppenheimer” (2023). Deu lucro, mas em nada expandiu o que se viu no original e em nada conversa com a concepção artística do filme matriz – o que a condena ao ser descartável.

O orçamento do atual regresso de Boyle ao tema da Raiva beira os US$ 60 milhões. É muito… perto do que ele teve nos tempos da sua estreia sob as ribaltas, com Shallow Grave, thriller de US$ 2,5 milhões que lhe valeu o prémio de Melhor Realização em San Sebastián, em 1994 – em PT é Pequenos Crimes Entre Amigos, e em telas brasileiras é Cova Rasa. Contudo, é um valor pequeno para uma produção em língua inglesa da Columbia Pictures, com distribuição da Sony, feita na parceria dos Estados Unidos com o Reino Unido, e escolhida para estrear na Summer season americana – o tempo dos blockbusters. Há estrelas em cena: Aaron Taylor-Johnson, Jodie Comer e um Jack O’Connell em cirúrgica aparição. No entanto, quem leva o filme para si é o Lorde Voldemort, Ralph Fiennes, numa interpretação fervida em ácido sulfúrico.
Todo besuntado de iodo, a sua personagem, o médico Kelson, é uma espécie de Oz de uma terra insular sem magia. Fala-se dele como um doido varrido, que enlouqueceu com a epidemia da Raiva e foi para a floresta, onde acende fogaréus sem razão explicável. A sua existência atiça a mente do miúdo Spike, o real protagonista do guião de Garland, vivido por Alfie Williams com uma maturidade surpreendente. Aos 12 anos, ele passa por um ritual de passagem ao seguir o pai, Jamie (Taylor-Johnson, em atuação apolínea, comedida, mas certeira), numa visita pelas matas que cercam o lar. Saem de arco e flecha, a arma que sobrou para o povo da ilha, isolada do continente depois da praga de há quase três décadas. Essa excursão é apresentada como expedição de caça, mas, na prática, serve como um desmame para o menino, um romper de laços com as benesses da infância, a fim de fazer dele um homem. É um rito com vários signos de culturas primevas em relação à masculinidade. Ali, tomba a criança e nasce o homem, o que leva Jamie a celebrar a eficácia do menino em matar… os raivosos que os caçam.

Spike (Alfie Williams) se consulta com o Dr. Kelson (Ralph Fiennes)

O primeiro terço de 28 Years Lateré dedicado a esse amadurecimento a flechadas e conta com a frenética montagem de Jon Harris, montador fetiche de Boyle, com quem fez o subestimado 127 Horas(2010) e “Yesterday(2019). Com ousadia e liberdade invejáveis, Jon une imagens de arquivo e de épicos medievais a takes rodados por Boyle em Northumberland, na fronteira da Escócia, sob os enquadramentos nada ortodoxos de Dod Mantle e a sua luz bruxuleada.

Esse trecho de abertura é feroz, com perseguições contínuas e correrias taquicárdicas. Quando Spike e Jamie regressam dessa peripécia é que começa o problema central do enredo: a mãe do menino e companheira da personagem de Taylor-Johnson, Isla (interpretada por Jodie), está a convalescer de uma doença que afeta a memória e raciocínio.

O piorar do seu estado faz com que Spike, agora a sentir-se um rapaz adulto, corra atrás de ajuda. Encontrar Kelson pode ser a saída, uma vez que o bom doutor (interpretado esplendidamente por Fiennes) é um curandeiro habilidoso. No entanto, num momento em que pessoas contagiadas pela Raiva evoluem e cheguem a um estágio chamado de Alpha (papel de Chi Lewis-Parry), curar alguém parece uma missão fadada ao fracasso. A missão mais urgente, contudo, democraticamente estendida para além de Spike a todas as personagens da fita, é sobreviver. A sobrevivência é o substantivo central dessa alegoria de uma caverna mais escura do que a platónica.

Não se trata de um jogo entre o Mundo da Essência e Mundo das Aparências, como escreveu Platão, e, sim, uma luta entre os excluídos da práxis capitalista e aqueles que se integraram a um arremedo de conforto, em que beber não é luxo e, sim, a manutenção de um vínculo com a ancestralidade europeia. O passado é o salvaguardo de um Presente hostil, em que o planeta deixou a Grã-Bretanha à deriva, num refluxo crítico de Boyle ao que aconteceu com as civilizações anglófilas quando as colónias de outrora (os EUA), emancipadas, fizeram-se império, relegando a metrópole à condição de museu a céu aberto.

Muito se escreveu sobre esse sucateamento (já está nos escritos de George Orwell dos anos 1940 e nas análises de Jean Baudrillard das décadas de 1980 e 90) e dele Boyle e Garland extraem uma joia, que parece sofisticada demais para os parâmetros comerciais do cinema. Bom, Sinners, de Ryan Coogler (Pecadores), lançado em abril, parecia ser sofisticado em demasia também e, ainda assim, arrecadou fortunas, no risco, na coragem. Essas duas palavras ajustam-se bem ao realizador de Trainspotting (1995), pois são a cara de Boyle. No seu filme de culto sobre drogas com Ewan McGregor, a “lixeira” do Reino Unido, via Edimburgo, fazia-se representar pela necessidade do entorpecimento crónico.

Agora, no Danny Boyle de “28 Years Later, temos o que Machado de Assis (1839-1908), autor de Quincas Borba(1891), definiu profeticamente no século XIX, com o conceito “ao vencedor, as batatas”. Ou seja, quem for forte, fica de pé. Afinal, até a América imperial de outrora hoje já não é tão firme, ao contrário do que Donald Trump quer fazer crer, na sua política de ódio. Não é à toa que o filme centrado na maturidade de Spike assume a palavra rage como demónio, numa metáfora a esse ódio. Estamos cercados de raiva, à esquerda; ao centro; ao redor dos zombies do cancelamento; à sombra das patrulhas woke; e à ultradireita. Eis que, nessa conjuntura, sob o assombro do zeitgeist do agora, da Inglaterra de Keir Starmer (para citar a pátria de Boyle), 28 Years Later chega como um sinal dos tempos. Um sinal eletrizante… e politizado.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
28-years-later-tem-a-fome-da-invencaoNão se trata de um jogo entre o Mundo da Essência e Mundo das Aparências, como escreveu Platão, e, sim, uma luta entre os excluídos da práxis capitalista e aqueles que se integraram a um arremedo de conforto, em que beber não é luxo e, sim, a manutenção de um vínculo com a ancestralidade europeia.