“Eu sou uma rocha! Eu sou um penhasco! Eu sou uma força que não conseguem quebrar!”. Assim o diz, particularmente nos momentos de maior angústia e tensão, a protagonista de “Amerikánka” (Girl America), Emma Černá, abandonada pela mãe nos tempos comunistas da Checoslováquia, entregue a um orfanato, depois a uma família de acolhimento e com uma passagem por um centro de detenção juvenil.
Aquilo que poderia ser um drama social de toada realista é transformada pelo cineasta Viktor Tauš num objeto que, entre o expressionismo e o surrealismo, mistura o formalismo teatral com uma montagem dinâmica de videoclipe pós-MTV, o qual provoca no espectador uma explosão de cor e de energia numa aplicação à letra do cinema como a “arte vampira” que João Botelho sempre proclamou.
Anteriormente adaptado a livro e a peça de teatro, este projeto com duas décadas de germinação nasceu a partir de uma história contada ao próprio cineasta e que assenta em duas forças muito próprias: a resiliência e a esperança, neste caso de uma menina (representativa de tantas outras) que vai passando por várias fases da vida de forma negligenciada. “Eu sou uma rocha! Eu sou um penhasco! Eu sou uma força que não conseguem quebrar!”, diz ela, vezes sem conta, enquanto os nossos sentidos são assaltados por uma direção de fotografia grandiloquente, uma montagem que nunca dá tréguas nos seus cortes rápidos e split screens, e um design de produção que nos leva sempre para os eventos como uma idealização do que aconteceu e não o reflexo do real.

Acompanhando três fases da vida de Emma, com uma atriz diferente a retratá-la em cada uma delas (Pavla Beretová na fase adulta, a adolescente Julie Šoucová e a criança Klára Kitto), o filme apresenta-se de forma não linear, sendo imperioso ao espectador uma atenção redobrada à extravagância do que explode no ecrã e reflete os diferentes estados emocionais da jovem. Altamente estilizado, o filme assume como foco a busca pelo sentimento de pertença, num jogo permanente entre expetativas e desilusões. Pertença que esta mulher vai apenas sentir temporariamente, seja no orfanato, seja na casa de correção juvenil, mantendo sempre na mente a tal “América” como o espaço dos sonhos e das ambições, na qual se encontra o pai, que certamente espera por ela. Ou talvez não…



















