Na apresentação da sessão do filme no IndieLisboa, este foi caracterizado como um “ensaio”. A palavra é demasiado sofisticada para o que a cineasta Valerie Veatch faz em Ghost in the Machine – onde o que se assiste não é um movimento dialético de ideias, mas um pacote fechado onde os entrevistados servem para corroborar a demonização prévia da inteligência artificial. Ou seja, se um espectador incauto almejar algo acima de uma visão menos ingénua da I.A. e das canções de embalar de Sam Altman, esse não é o melhor veículo. E deixa o ponto de vista crítico numa situação incómoda: se quase tudo o que o filme oferece através de uma ininterrupta sucessão de cabeças falantes é ideologia, o que sobra para um não-crente? Uma boa questão para o ChatGPT, talvez.

No primeiro terço, o espectador ainda não sabe bem a que veio. Está a assistir à uma contínua associação de revolucionários da estatística e da matemática com a eugenia que empestava parte dos estudos científicos no final do século XIX. No caso de Francis Galton, isso é particularmente válido; o problema é batizar todos os complexos caminhos originários das ciências informáticas e afins como esse tipo de matriz. Pelo caminho, encontramos Alan Turing, um homem duramente perseguido pela sua homossexualidade nos anos 50, ou Gilbert Ryle, de onde o título do filme é extraído. Aqui fica difícil de perceber: não há indicações de que Ryle tenha manifestado (ao contrário de alguns outros) pontos de vista extremistas e a sua ideia a propósito de “ghost in the machine” era uma certeira pedrada no “misfire” cartesiano da separação entre corpo e alma. Ou seja, a ideia filosófica é desvirtuada para uma aplicação moral que a contraria.

A inteligência artificial, como qualquer tecnologia, tem muitos benefícios (o filme não reconhece um único), mas também questões seríssimas a debater: tornará os cérebros humanos mais preguiçosos? Como será o impacto no ensino? Vai devastar o mercado de trabalho com uma contínua substituição de humanos? Que resultados vai ter em diversas áreas – principalmente no domínio da Ética? E o que podem pragmaticamente fazer as empresas que a dominam? Essas e muitas outras considerações poderiam ter sido feitas para, a desejar, vilanizar a I.A. Mas Veatch não propõe nada disto porque o filme não é para a sociedade em geral, mas para reforçar uma comunidade de crentes. Assim, em vez de esclarecimentos, temos uma pesada retórica identitária, cheia de “underdogs” (daqueles que os algoritmos adoram) e onde a dado momento uma entrevistada diz algo como isso: “as mulheres criam vida biologicamente. Os homens brancos de Silicon Valley criaram algo para competir com isso, visando gerar vida através da tecnologia”. Podemos considerar a ideia como filosofia especulativa mas… será esse minimamente o ponto?

Numa fase posterior, surge a crítica ao capitalismo. Aqui é usada a via da personalização e a I.A. é associada a figuras com “statements” detestáveis, como Elon Musk e Donald Trump, embora Altman seja mais difícil de satanizar com libelos, já que a sua retórica é mais discreta. A solução: o colocar diversas vezes ao lado de Trump – e focar na associação, já bastante conhecida, da Open AI com o mundo militar. O terreno é fértil para exploração, mas prejudicado pela superficialidade e desordem temática com que os argumentos são dispostos. E em geopolítica faltou o outro pedaço da história: a China, país crucial na evolução da I.A. que nem sequer é mencionada. 

Alguns dos entrevistados são de qualidade técnica discutível e variam desde panfletários até refratários que se assemelham àqueles idealistas do Romantismo que sonhavam com um mundo pré-Revolução Industrial. É válido mas, por mais que Veatch e alguns dos seus convidados não gostem, o avanço É mesmo imparável. Ou seja, “Ghost in the Machine” acaba por não dar argumentos realistas e de qualidade a alguém que queira efetivamente questionar esse processo – dentro de um mundo que já não vai voltar atrás. Em vez disso, termina em letras garrafais com um “NOT I.A”, já adotado no canto superior direito a dado momento. Só faltou dizer que foi a Inteligência Artificial que mandou o povo comer brioches no tempo dos jacobinos. 

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Pontuação Geral
Roni Nunes
ghost-in-the-machine-panfleto-para-crentes “Ghost in the Machine” acaba por não dar argumentos realistas e de qualidade a alguém que queira efetivamente questionar esse processo - dentro de um mundo que já não vai voltar atrás.