Mostrando a vitalidade habitual dos cineastas iranianos que chegam ao ocidente através da etiqueta Iranian Independents, Saeed Roustayi tem construído um corpo de obra interessante no que concerne à sociedade iraniana (“A Lei de Teerão” é filme obrigatório, bem como “Blockage” que escreveu), destacando, particularmente nos seus dois mais recentes filmes, “Leila’s Brothers” e “Woman and Child”, figuras no feminino que, longe de serem perfeitas, veem-se a braços, numa sucessão de malapatas e eventos dramáticos, com decisões formatadas de uma sociedade patriarcal que não apenas as relega para segundo plano, como condiciona na totalidade as suas vidas. 

Assim foi em “Leila’s Brothers”, onde, para não quebrar a tradição e mostrar uma masculinidade orgulhosa fragilizada, o patriarca de uma família decide fazer uma doação para o casamento de um primo que vai comprometer o frágil patrimônio que possui, prejudicando os seus quatro filhos e, principalmente, a filha Leila, que dá nome ao filme. Já em “Woman and Child”, o centro de tudo é Mahnaz (Parinaz Izadyar de “A Lei de Teerão”), uma enfermeira de 45 anos, mãe de duas crianças: Neda (Arshida Dorostkar), de oito anos, e o adolescente rebelde Aliyar(Sinan Mohebi), que não se cansa de ter problemas na escola ao ponto de se iniciar um processo de expulsão. 

Viúva e ocupada entre empregos e obrigações de providenciar uma vida tranquila à família, Mahnaz está à beira de um segundo casamento com o motorista de ambulância Hamid (Payman Maadi, de “Leila’s Brothers”), um homem que rapidamente expõe as suas red flags de mulherengo, além de ilegalmente permitir que pessoas durmam nas ambulâncias quando elas não estão a ser usadas, recebendo em troca dinheiro. A vida de Mahnaz despenca quando uma tragédia acontece, deixando-a emocionalmente devastada e preparada para a guerra com todos os homens que circulam a sua vida, a começar pelo avô do miúdo, que pode ter responsabilidade no desastre que se abateu sobre ela; passando por Hamid, que entretanto começa a mostrar interesse na sua irmã mais nova, Mehri (Soha Niasti); e finalizando com o professor Samkhanian (Maziar Seyyedi), que expulsou Aliyar contra o conselho de um colega, precipitando (segundo Mehnaz) a tragédia. O problema (e não há dilemas aqui) é que nessa guerra contra os três homens, o terreno político, cultural e social em que Mahnaz se propõe a batalhar está inclinado, sempre a favor dos homens. 

Com a vitalidade habitual de um cinema em que a montagem impõe um ritmo frenético movido principalmente pela palavra, num vai e vem de argumentos e contra-argumentos onde a prestação de Parinaz Izadyar se destaca, Saeed Roustayi não se coíbe de colocar voltas e reviravoltas no caso e vida desta mulher, que, apesar de tudo, demonstra sempre uma enorme resiliência perante as situações que vão se acumulando em efeito dominó. E embora desta vez o realizador e argumentista pareça menos subtil na introdução de colapso atrás de colapso na sua história, como se vê na forma telenovelesca com que o noivo de Mahnaz começa a interessar-se pela irmã desta, “Woman and Child” consegue ainda assim mostrar a sua força e encaixar bem no corpo de obra de Roustayi, que é, juntamente com Shahram Mokri, Ali Asgari, Mohsen Gharaie e Nima Javidi, um dos cineastas iranianos mais interessantes da sua geração.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
woman-and-child-saeed-roustayi-regressa-com-infortunios-e-outras-calamidadesCom a vitalidade habitual de um cinema em que a montagem impõe um ritmo frenético movido principalmente pela palavra, num vai e vem de argumentos e contra-argumentos onde a prestação de Parinaz Izadyar se destaca, Saeed Roustayi não se coíbe de colocar voltas e reviravoltas no caso e vida desta mulher, que, apesar de tudo, demonstra sempre uma enorme resiliência perante as situações que vão se acumulando em efeito dominó.