O capitalismo selvagem, numa sociedade neoliberal que conduz frequentemente à desumanização, tem sido uma constante no cinema de Radu Jude (Má Sorte no Sexo ou Pornografia Acidental; Não Esperes Demasiado do Fim do Mundo, Kontinental’ 25). De certa maneira, o romeno tem desconstruído algo que se tem apresentado como real e a única e verdadeira forma justa de viver, revelando na verdade um mito, o capitalista, que diz que se a economia for livre, sem intervenção alguma de órgãos externos ou do governo, ela vai-se regular de forma automática, como se houvesse uma mão invisível por trás de tudo, fazendo com que os preços dos produtos fossem ditados pelo próprio mercado. Isso mesmo trará igualdade de oportunidades e distribuição justa da riqueza, coisa que não assistimos, mas que dizem que é o que nos espera. Ah, claro, se tivermos mérito — e se acreditarmos no mito do crescimento económico infinito, que o capitalismo insiste em vender como facto, mas que é crença.

E por falar noutros mitos, Jude trouxe mais um para cena no seu novo filme, o de Drácula. Na sua forma inconfundível, casou-o também com o capitalismo nas mais variadas formas (parques temáticos, rotas turísticas, produtos para aumentar a libido, etc.), apresentando mais um trabalho audacioso e conceptualmente brilhante, novamente inserido na competição no Festival de Locarno.

O Drácula de Jude é, acima de tudo, um objeto de crítica à indústria cinematográfica, às dinâmicas capitalistas no cinema pós-autoral, ao consumismo cultural e à obsessão por conteúdos comerciais. E, para isso, Jude utiliza a farsa como veículo: um realizador à procura de um sucesso comercial (interpretado por Adonis Tanța) utiliza um software de IA fictício, Dr. AI Judex 0.0, para criar um filme com tudo o que o público alegadamente deseja. Ou seja, haverá nudez, certamente violência, muito humor, perseguições frenéticas e sangue. Muito sangue. Coesão ou qualidade são elementos secundários para o nosso realizador criativamente bloqueado, pois o cinema aqui (e a arte) é uma mercadoria, um conteúdo que deve chegar ao consumidor com os ingredientes definidos em laboratórios de estudos de marketing.

Com uns extensos 170 minutos, que pecam pela repetição exaustiva de uma crítica bem construída e compactada logo nos primeiros 50 minutos, Drácula é um festival de formas, estilos e referências que vão desde análises históricas à figura de Vlad o Imperador, ao cinema mudo e tempos de Nosferatu, passando pelas formas da criatura nas mãos da Universal e da Hammer, até à chegada da contemporaneidade e dos tik toks da vida.

O realizador frustrado convoca a IA para desenvolver histórias em torno de Drácula

Claro está que a Inteligência Artificial — a última (e talvez derradeira) ferramenta do capitalismo — está presente no filme, não apenas como uma menção alarmista no guião caótico de Jude, mas como construtora de muitas das imagens bizarras que aparecem no grande ecrã. É aliás com essas imagens (16) que começa o filme, com Drácula a dizer: “I’m Conde Dracula. Suck My Cock”, antes de passarmos para mais uma série de contos dentro de contos, num exercício “criativo” da IA made by jude, sempre com o “público” e os seus alegados desejos na mente. Quem paga os filmes sabe o que devemos ver, ouvir, comprar — e é essa lógica de mercado, e não a arte, que orienta cada escolha.

Jude é um provocador por natureza e usa (e abusa) de todo o ferramental que tem à mão para fazer um filme “com ponta por onde se lhe pegue”. Porém, essa repetição chega a ser extenuante, não apenas pelas mudanças e quebras de ritmo e interesse, nunca parecendo um objeto consolidado que efetivamente faça uma crítica apurada do que expõe, sem entretanto nos alienar.

Ao entregar a criação à IA, Jude não critica apenas o mercado — ataca também o lugar do autor. No seu realizador frustrado, mostra o dilema do criador no mundo pós-autoral, onde a inspiração é substituída por algoritmos. E ao abraçar as falhas da IA e os defeitos desta tecnologia ainda numa fase de apuramento das suas capacidades, Jude abarca também noutra questão, que até irrita Scorsese: a tal coisa a que hoje em dia se chamam conteúdos — forma para o que antigamente tinha fronteiras bem estabelecidas, como cinema e televisão.

Sempre num registo de paródia, o realizador — que, em verdade, não aspira a fazer um bom filme — lança um objeto comercial que, na sua forma crua e grotesca, se satiriza a si mesmo. Contudo, ao mergulhar no processo de criticar aquilo que está a construir, acaba por se perder num loop interminável. Drácula só ganha forma na nossa mente quando o espectador, diante da avalanche de imagens e sons que o atingem, filtra, seleciona e condensa o essencial — aquilo que, afinal, não exigia 169 minutos para ser compreendido e refletido.

No fim, o espectador não é apenas confrontado com o caos — é obrigado a reconstruir o sentido a partir dos escombros. Será que a crítica ao excesso justifica (ou precisa d) o excesso?

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
170-minutos-de-caos-o-regresso-de-radu-jude-com-draculaNo processo de criticar o que está a fazer, Jude perde-se em demasiadas redundâncias e só se encontra na nossa cabeça, quando filtramos a avalanche de imagens e sons com que fomos torpedeados, selecionando e compactando assim o que não precisava de 169 minutos para entender e refletir.